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Meio Ambiente

Dois anos após enchentes históricas, MPF reforça urgência de políticas de adaptação climática no RS

Quarta edição do projeto nacional Adaptação Climática em Foco reúne especialistas, integrantes do sistema de Justiça e sociedade civil em Porto Alegre

Data: 26/05/2026 • 15:13 Unidade: Procuradoria-Geral da República
Mesa de debate em seminário do MPF sobre adaptação climática. Oito participantes em trajes formais sentam-se à bancada com microfones. Ao fundo, veem-se bandeiras e uma tela de projeção com o título  Adaptação Climática em Foco

Foto: Ascom/PRR4

Cerca de dois anos após a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, representantes do Ministério Público, do sistema de Justiça, da academia e da sociedade civil se reuniram, nesta terça-feira (26), em Porto Alegre, para discutir estratégias de prevenção de novos desastres extremos. A abertura do projeto “Adaptação Climática em Foco: Rio Grande do Sul” marcou o início de dois dias de debates promovidos pelo Ministério Público Federal (MPF), em parceria com a Escola Superior do Ministério Público da União (ESMPU). Essa é a quarta edição do projeto nacional, que já passou por Recife (PE), São Paulo (SP) e Belo Horizonte (MG). 

Em maio de 2024, as enchentes atingiram 478 municípios gaúchos, afetaram cerca de 2,4 milhões de pessoas e deixaram centenas de milhares de desalojados e desabrigados, além de ao menos 184 mortes confirmadas, segundo dados da Defesa Civil estadual. O desastre transformou cidades, deslocou famílias inteiras e expôs a necessidade de políticas permanentes de prevenção, adaptação e proteção social diante da emergência climática.

Seminario Adaptacao Climatica em Foco - Terca, 26 de maio (18).jpgNa abertura do seminário, a subprocuradora-geral da República Luíza Frischeisen refletiu sobre os desafios de assumir a coordenação da Câmara de Meio Ambiente do MPF (4CCR) pouco tempo depois das enchentes e acompanhar de perto um cenário de devastação sem precedentes no estado. Ela lembrou ainda que, enquanto o Rio Grande do Sul enfrentava enchentes históricas, outras regiões do país sofriam com incêndios extremos, evidenciando que os eventos climáticos deixaram de ser episódios isolados. “Precisamos acreditar nos dados científicos e cobrar adaptabilidade das administrações municipal, estadual e federal”, disse.

Frischeisen também ressaltou que a crise climática afeta de forma mais severa as populações vulnerabilizadas, especialmente mulheres, meninas e comunidades tradicionais. Segundo ela, a atuação institucional precisa integrar proteção ambiental, direitos humanos e garantia de participação social. “Não podemos evitar todos os efeitos climáticos, mas podemos evitar as consequências para as populações por meio da resiliência e adaptação”, afirmou.

Resiliência - O conceito de resiliência climática precisa sair do campo abstrato e se transformar em ação concreta diante do cenário imposto pelos eventos extremos. Foi o que defendeu a procuradora-chefe da Procuradoria da República na 4ª Região (PRR4), Ana Luisa Chiodelli. O prédio da PRR4, local que sedia o evento, foi um dos espaços públicos que ficou alagado durante as enchentes de 2024. “Resiliência climática é a capacidade de um sistema, comunidade ou cidade se preparar, resistir, adaptar-se e superar situações adversas. O cenário atual é de um 'novo normal' climático, com previsão de novos eventos. Precisamos trazer esse assunto à pauta e agir”, reforçou.

Nesse sentido, o projeto Adaptação Climática se apresenta como um catalisador de construção coletiva de soluções institucionais para enfrentamento, mitigação e adaptação a esse “novo normal”. Diretora-geral da ESMPU, a procuradora regional da República Raquel Branquinho destacou a importância do evento “para discutir as causas previsíveis dos desastres ambientais e estabelecer compromissos capazes de produzir mudanças concretas na atuação pública”.

Direitos humanos - Os desafios enfrentados durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul revelam a necessidade de tornar mais eficiente a defesa dos direitos humanos. O procurador-geral de Justiça do estado, Alexandre Saltz, refletiu sobre o papel fundamental do Ministério Público na garantia de continuidade de políticas públicas nas áreas de abrigamento, segurança alimentar e formulação de políticas públicas emergenciais. “Os direitos humanos são testados na prática, na falta da prestação do direito. Somos o fiel da crença das pessoas de que existe uma instituição que ficará aqui para cuidar delas”, ponderou.

A fala foi reforçada pelo procurador regional da República João Akira Omoto, coordenador do grupo estratégico do Mecanismo Nacional de Monitoramento de Obrigações Internacionais de Direitos Humanos (MCOIDH), vinculado à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC). Ele destacou a consolidação do meio ambiente como direito humano reconhecido internacionalmente e defendeu que o sistema de Justiça brasileiro incorpore os parâmetros estabelecidos pelo Sistema Interamericano de Direitos Humanos no enfrentamento da emergência climática.

Adaptação em foco - Realizado pela Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural (4CCR) do MPF e idealizado pelo Grupo de Trabalho Emergência Climática, o projeto Adaptação Climática em Foco busca reunir e divulgar informações científicas sobre as mudanças climáticas, promover o diálogo entre a academia e os poderes públicos, e acompanhar a implementação efetiva de planos de adaptação climática nos estados e municípios, buscando a união entre ciência, poder público e sociedade civil. 

“O objetivo deste projeto é promover discussões sobre adaptação climática com foco em cada estado da federação. Idealizamos esse formato para estabelecer diagnósticos baseados nas melhores informações científicas locais, permitindo-nos cobrar as adaptações obrigatórias”, afirmou a coordenadora do grupo, procuradora regional da República Annalucia Hartamnn, na abertura do evento.

Também participaram da mesa de abertura o procurador da República e coordenador pedagógico da capacitação, Paulo Leivas, o procurador-chefe da Procuradoria do Rio Grande do Sul, Felipe Muller, e a desembargadora do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), Brígida Barcelos.

Acompanhe - No Rio Grande do Sul, o evento segue até esta quarta-feira (27), com debates sobre reconstrução sustentável, justiça climática, proteção de populações vulneráveis e implementação de políticas públicas baseadas em evidências científicas.

As discussões podem ser acompanhadas pelo Canal do MPF no Youtube, conforme links abaixo:

Adaptação Climática em Foco: Porto Alegre - 26/5/2026
Adaptação Climática em Foco: Porto Alegre - 27/5/2026

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