Criminal
Jogo de Sombras: MPF e Receita Federal deflagram operação contra esquema de bets que movimentou mais de R$ 5 bilhões em 2025
Investigação conduzida pelo Gaeco cumpriu seis mandados em três estados para apurar sonegação fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro
Foto: Leobark Rodrigues/MPF
O Ministério Público Federal (MPF) e a Receita Federal apresentaram, na manhã desta sexta-feira (28), resultados da Operação Jogo de Sombras, que investiga um grupo empresarial responsável por uma plataforma de apostas esportivas que teria movimentado mais de R$ 5 bilhões somente em 2025. Conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) Nacional em parceria com o Gaeco do MPF em Pernambuco, a investigação apura suspeitas de sonegação fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro relacionadas à exploração de bets antes e depois da regulamentação do setor no Brasil.
Durante a operação, foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão em João Pessoa (PB), Recife (PE) e São Paulo (SP), além da apreensão de R$ 191 milhões em bens e valores. A ação mobilizou 10 procuradores da República, policiais do MPF e peritos da Secretaria de Perícia, Pesquisa e Análise (Sppea), além de 28 servidores da Receita Federal, entre auditores-fiscais e analistas-tributários.
Diferentemente de operações em que a investigação criminal é conduzida pela Polícia Federal, a Jogo de Sombras é uma investigação própria do MPF, com apoio técnico e operacional da Receita Federal. As diligências também contaram com o suporte dos Gaecos dos Ministérios Públicos de Pernambuco e da Paraíba.
Para o subprocurador-geral da República e coordenador do Gaeco Nacional, José Adonis Callou de Araújo Sá, a operação de hoje é um resultado prático da parceria entre o MPF e a Receita Federal no combate ao crime organizado, reforçada com a assinatura de um termo de cooperação técnica entre as instituições, em julho.
Investigação – De acordo com os elementos reunidos até o momento, os investigados teriam criado uma empresa de fachada em Curaçao para simular que a operação da plataforma ocorria fora do Brasil antes da regulamentação das apostas de quota fixa. As apurações indicam, no entanto, que empresas brasileiras vinculadas ao grupo seriam as responsáveis pela operação efetiva da plataforma no país.
Segundo o secretário especial da Receita Federal do Brasil, Robinson Barreirinhas, há indícios de que a atividade de apostas já era explorada em território nacional há cerca de sete anos, aproximadamente cinco anos antes da autorização para o funcionamento regular das empresas do setor. “As provas evidenciam que essa organização já estava presente no Brasil, com funcionários e beneficiários no país, mas sem pagar nada de tributos e nem se sujeitar à regulação brasileira”, explicou Barreirinhas.
A investigação também busca esclarecer se os recursos utilizados para o pagamento da outorga, necessária para a atuação regular no mercado, teriam origem em atividades desenvolvidas antes da regulamentação.
Poder financeiro – Durante a coletiva, o coordenador-adjunto do Gaeco Nacional, Fábio George Nóbrega, destacou que o enfrentamento às organizações criminosas não pode se limitar à responsabilização individual dos envolvidos. Para ele, atingir a capacidade econômica dos grupos é uma das principais estratégias de combate ao crime organizado. “Não basta apenas punir os integrantes das organizações criminosas. A asfixia financeira, a descapitalização desses grupos, é uma missão fundamental para reduzir a capacidade de atuação e financiamento dessas atividades”, enfatizou.
Nesse contexto, o coordenador-adjunto ressaltou os resultados dos Gaecos do MPF em 2025. Ao longo do ano, foram mais de R$ 28 bilhões em valores bloqueados, além de mais de 60 operações deflagradas, 126 prisões e 126 denúncias apresentadas à Justiça Federal contra 929 pessoas. Ao final de 2025, havia mais de 400 investigações em andamento relacionadas ao crime organizado.
Articulação interinstitucional – O secretário especial da Receita Federal ressaltou ainda a gravidade dos problemas associados às plataformas ilegais de apostas. “Estamos em um combate incessante às bets ilegais no Brasil. Reconhecemos que essas atividades são um problema muito sério para a economia popular, porque drenam recursos e endividam famílias”, pontuou.
Para Barreirinhas, a integração entre Receita Federal e MPF é fundamental para aumentar a efetividade das ações contra empresas que operam à margem das regras estabelecidas para o mercado de apostas. “É importante essa cooperação com o MPF para termos efetividade nesse combate. Essa parceria será ainda mais forte agora com a assinatura do acordo de cooperação técnica”, afirmou.
O MPF já realiza ações destinadas a reprimir essas empresas e plataformas sem autorização para atuar no País e, por isso, não estão submetidas ao acompanhamento da Secretaria de Prêmios e Apostas.
Atuação do MPF – Criado em 2025, o Gaeco Nacional é formado por 15 membros, além do coordenador nacional, e atua como grupo de apoio aos procuradores da República em casos de maior complexidade. Para fortalecer o combate ao crime organizado, o MPF também criou recentemente oito Gaecos Regionais. “Esses trabalhos exigem mais apoio e infraestrutura. A criação dessas novas estruturas regionais é um reforço significativo de estruturação dentro do MPF voltado ao combate ao crime organizado”, frisou Adonis.
A estrutura do MPF dedicada ao combate ao crime organizado será ampliada. A partir de outubro, serão 133 membros especializados na área, o equivalente a cerca de 12% do total de procuradores da República.
Em outra frente, em julho deste ano, MPF e Receita Federal firmaram acordo para aprimorar o combate a organizações criminosas e à lavagem de dinheiro. O termo prevê o compartilhamento de dados e informações entre as instituições, além do desenvolvimento conjunto de soluções tecnológicas. “A cooperação permitirá a formação de equipes conjuntas de trabalho entre as instituições, com mais direcionamento ao combate ao crime organizado e suas repercussões no campo tributário”, concluiu o coordenador do Gaeco Nacional.
Operação Arena – A operação Jogo de Sombras é a segunda investigação de grande porte com participação da Receita Federal e do MPF voltada especificamente à investigação de irregularidades tributárias e financeiras relacionadas ao mercado de apostas de quota fixa. No início de agosto, a Operação Arena cumpriu 17 mandados de busca e apreensão em cinco estados. A investigação identificou indícios de evasão fiscal superior a R$ 1 bilhão, com decisão judicial para apreensão de bens e valores.
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