Indígenas
MPF acompanha acolhimento de indígenas Warao em Maceió
Atuação busca garantir os direitos das famílias venezuelanas, especialmente das crianças, e avaliar medidas de proteção para indígenas que deixam o abrigo municipal
Foto da tela: Comunicação MPF/AL
O Ministério Público Federal (MPF) realizou, nesta quinta-feira (22), uma reunião com representantes da Prefeitura de Maceió para acompanhar a política de acolhimento dos indígenas venezuelanos da etnia Warao e assegurar a proteção dos direitos das famílias atendidas, especialmente das crianças e adolescentes. O encontro discutiu as condições de permanência no abrigo municipal, a aplicação de regras de convivência e a necessidade de garantir que eventuais sanções individuais não comprometam a assistência prestada a familiares que não tenham participado das situações que motivaram as medidas.
A reunião foi coordenada pelo procurador da República Eliabe Soares, responsável pelo ofício de povos indígenas e comunidades tradicionais do MPF em Alagoas. Desde dezembro de 2024, a instituição acompanha a política municipal de acolhimento dos Warao, buscando, em diálogo com o poder público, aprimorar o atendimento às famílias indígenas migrantes, considerando suas particularidades culturais e necessidades de proteção social.
Durante o encontro, o MPF manifestou preocupação com os possíveis efeitos dos desligamentos de acolhidos sobre outros integrantes das famílias. Embora reconheça a necessidade de regras de convivência e de medidas para prevenir situações de violência, a instituição destacou que a responsabilização por condutas individuais não deve resultar na desproteção de mulheres, crianças e adolescentes.
A preocupação é que, mesmo quando uma sanção é aplicada exclusivamente à pessoa responsável por determinada conduta, seus efeitos possam atingir familiares, provocando a interrupção do acolhimento e comprometendo a rotina e o acesso a serviços essenciais, especialmente para as crianças.
“As regras de convivência precisam ser respeitadas, e situações de violência exigem providências. Mas é fundamental que as consequências de uma conduta individual não comprometam a proteção de toda uma família, especialmente das crianças. Nosso objetivo é construir, junto ao município e à própria comunidade Warao, soluções que conciliem as diversas perspectivas”, ponderou o procurador Eliabe Soares.
Acompanhamento e proteção social
Representantes da gestão municipal apresentaram as dificuldades enfrentadas na administração do acolhimento, incluindo conflitos entre moradores e episódios de violência. Segundo a equipe, as medidas disciplinares são precedidas de acompanhamento e diálogo, sendo o desligamento adotado em situações previstas nas regras da unidade.
Para aprofundar a avaliação dessas medidas, o MPF determinou o levantamento dos registros e prontuários referentes às sanções aplicadas aos acolhidos. As informações serão incorporadas ao procedimento que acompanha a execução da política pública municipal, permitindo examinar as circunstâncias dos desligamentos e seus possíveis impactos sobre as famílias.
Outro encaminhamento foi o mapeamento das pessoas que deixaram o abrigo, para identificar onde estão vivendo, em quais condições se encontram e se necessitam de outras medidas de assistência social.
Durante a reunião, a equipe municipal informou que cerca de 37 indígenas estavam deixando voluntariamente a unidade de acolhimento, enquanto aproximadamente 32 permaneceriam no local. A saída voluntária desse grupo não se confunde com os desligamentos disciplinares discutidos durante o encontro.
O MPF também abordou a necessidade de ampliar as alternativas de proteção social e de construção da autonomia das famílias, considerando que o acolhimento institucional possui caráter transitório. Entre as possibilidades discutidas estão a articulação com outras políticas públicas, como programas de apoio à moradia, e a avaliação de alternativas para a organização do serviço de acolhimento.
A possibilidade de retorno de indígenas à Venezuela também foi mencionada, mas ainda não há confirmação de uma intenção coletiva nesse sentido. A questão demanda avaliação das circunstâncias e das condições de eventual retorno ao país de origem.
Escuta da comunidade indígena
Como parte do acompanhamento, o MPF agendou uma reunião exclusiva com integrantes da comunidade Warao para o dia 6 de novembro. O objetivo é ouvir diretamente os indígenas sobre as condições de acolhimento, as dificuldades enfrentadas e os impactos das medidas adotadas na unidade, garantindo que suas perspectivas sejam consideradas na avaliação da política pública.
A iniciativa busca contribuir para a construção de soluções que respeitem a identidade cultural da comunidade e assegurem a proteção integral das crianças e adolescentes, sem afastar a necessidade de prevenir e enfrentar situações de violência.
O MPF continuará acompanhando as providências adotadas pelo município, com atenção especial à preservação dos vínculos familiares, à continuidade da assistência social e à garantia dos direitos fundamentais dos indígenas venezuelanos acolhidos em Maceió.
1.11.001.000371/2024-28