Meio Ambiente
MPF, Museu do Jardim Botânico e Instituto Alana realizam conversa sobre infância e sua relação com a natureza
Encontro repercutiu temas propostos pela exposição “O Livre Brincar no Mundo dos Afetos”, em exibição no Memorial do MPF no Rio de Janeiro
Foto: Comunicação/MPF.
O Ministério Público Federal (MPF), em parceria com o Museu do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (RJ) e o Instituto Alana, promoveu, no dia 9 de outubro, um debate aberto sobre a importância de incentivar práticas de lazer livres e reconectadas com a natureza entre as crianças. O bate-papo integrou a programação do evento "Semana Criança e Natureza", realizado no Museu do Jardim Botânico.
O evento reuniu especialistas no tema, como a artista e educadora Graziela Kunsch, representantes do Instituto Alana, o pesquisador em educação ambiental Paolo Massoni, além de servidores e terceirizados da Procuradoria da República no Rio de Janeiro (PR/RJ). O debate dialogou com a exposição "O Livre Brincar no Mundo dos Afetos", em exibição no Memorial da unidade do MPF na capital fluminense.
A procuradora da República e curadora da exposição, Fabiana Schneider, abriu a tarde do evento falando da ligação temática entre a mostra e a roda de conversa, resultado de uma colaboração entre instituições interessadas pela questão infantil. "Assim como a exposição do Memorial, esse evento propõe um diálogo sobre a importância de incentivar práticas de lazer livres, presenciais e conectadas com a natureza. A parceria entre o MPF e o Museu do Jardim Botânico nasce desse interesse comum pela infância e sua relação com espaços naturalizados", declarou.
Desenvolvimento infantil
Ao tratar sobre lazer e educação infantil, a artista visual Graziela Kunsch falou sobre a necessidade de respeitar a autonomia de cada criança para um desenvolvimento motor independente da intervenção dos pais. Segundo ela, a abordagem Pikler – uma metodologia de educação infantil voltada para bebês e crianças de zero a três anos – contribui para a construção de novos vínculos entre pais e filhos, baseados no respeito à autonomia e capacidade dos pequenos.
“Quando colocamos um bebê de poucos meses no chão para brincar, somos nós, adultos, que escolhemos a posição inicial. Uma das grandes contribuições da abordagem Pikler foi mostrar que, deitado de barriga para cima, o bebê é capaz de conquistar, por conta própria, diferentes posturas e movimentos, sem que o adulto antecipe etapas do desenvolvimento motor", explicou.
A bióloga Carolina Capitu, representante do Instituto Alana, abordou o conceito de crise da experiência da natureza na infância, apontando os impactos ambientais e climáticos como uma das causas para o processo de distanciamento entre seres humanos e ambientes naturais. Para ela, a falta de vivências com a natureza prejudica a percepção e construção do vocabulário das crianças. "Nos últimos 200 anos, o uso de palavras referentes à natureza, tais como o nome de árvores e aves, diminuiu. Afinal, não falamos daquilo que não se vive e não se tem conhecimento. Essa é a crise da experiência da natureza. E essa falta de acesso a espaços naturalizados também é atravessada por questões de classe, etnia e gênero”, ressaltou.
Natureza e sociedade
Dando seguimento ao debate, o pesquisador em educação ambiental Paolo Massoni destacou a relação entre os processos históricos de formação do Brasil, baseados no modelo moderno, colonial e capitalista da sociedade ocidental, e as desigualdades no acesso aos bens ecológicos e espaços naturalizados entre a população. Para exemplificar, Massoni comparou o planejamento urbano de regiões nobres e periféricas da cidade do Rio de Janeiro.
“Muitas pessoas que vêm ao Rio de Janeiro conhecem apenas as regiões da cidade onde as ruas são amplamente arborizadas e, apesar do calor característico do município, o clima costuma ser mais ameno. A gente tem algumas cidades dentro do Rio e isso representa um acesso desigual à natureza para as pessoas", afirmou.
Para Andreia Fernandes, servidora da unidade do MPF no Rio de Janeiro, o evento representou uma oportunidade de escuta e aprendizagem sobre temas caros para a sociedade atual. “Ouvimos pessoas comprometidas com a conscientização sobre os prejuízos do distanciamento entre seres humanos e a natureza, que ocorre desde a infância. Além disso, recebemos orientações de caminhos para mudar esse cenário, inclusive sobre dar voz às crianças, que muitas vezes acabam tendo que seguir um ‘protocolo’ de desenvolvimento sem ter o poder de opinar quanto às suas preferências ou sonhos", relatou.
Filme e exposição
Após a roda de conversa, o público teve a oportunidade de assistir ao filme "Do Colo da Terra”, apresentado pelo Instituto Alana. A diretora, Renata Meirelles, marcou presença como uma das convidadas do debate falando sobre infâncias e práticas de lazer indígenas.
A exposição “O Livre Brincar no Mundo dos Afetos" está aberta ao público de segunda a sexta-feira, das 12h às 17h, no Memorial da Procuradoria da República do Rio de Janeiro.
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