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Preconceitos naturalizados, hiperconexão e saúde mental marcaram palestra do MPF no TRE-PB
Debate abordou riscos psicossociais no trabalho, impactos do ambiente digital e efeitos desiguais do cansaço sobre grupos vulnerabilizados
Foto: Comunicação MPF
O preconceito cotidiano, muitas vezes manifestado por meio de comportamentos aparentemente comuns ou naturalizados, pode produzir impactos profundos na saúde mental e nas relações de trabalho. Esse foi um dos principais temas discutidos na palestra “Preconceito no cotidiano: exclusão e discriminação naturalizadas no ambiente de trabalho e digital”, realizada nessa terça-feira (26), pelo procurador da República José Godoy, durante a Semana de Combate ao Assédio 2026 promovida pelo Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB). A atividade reuniu reflexões sobre riscos psicossociais, discriminação estrutural e transformações provocadas pelo trabalho na era digital.
Entre os pontos debatidos esteve a recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, que passou a incluir formalmente fatores relacionados à saúde mental no gerenciamento dos riscos ocupacionais. Entre os aspectos destacados estão excesso de metas, cobranças abusivas, jornadas excessivas e práticas de assédio moral e sexual. Também foi ressaltado que, embora a discussão normativa tenha surgido no contexto das relações regidas pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), os desafios relacionados à saúde mental não se restringem à iniciativa privada.
Durante a palestra, foi defendido que os riscos psicossociais presentes no ambiente laboral, como pressão por desempenho, relações excessivamente hierarquizadas e sobrecarga emocional, também fazem parte da realidade do serviço público, exigindo mecanismos institucionais de prevenção e proteção à saúde dos servidores.
Hiperconexão x descanso - Outro aspecto abordado foi a hiperconexão proporcionada pelas tecnologias digitais. O debate chamou atenção para a mudança na percepção tradicional da jornada de trabalho em um cenário em que mensagens, cobranças e demandas frequentemente ultrapassam os limites formais do expediente. A conexão permanente foi apontada como fator capaz de afetar o descanso, o sono e os processos de recuperação física e emocional.
O procurador também trouxe o conceito de “sociedade do cansaço”, desenvolvido pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. A ideia apresentada foi a de que modelos contemporâneos de trabalho e produtividade têm substituído formas tradicionais de controle por mecanismos de autocobrança permanente, nos quais o próprio indivíduo passa a monitorar e exigir de si desempenho contínuo.
Positividade tóxica - Nesse contexto, foi debatida a chamada “positividade tóxica”, caracterizada pela pressão para demonstrar produtividade, satisfação e otimismo constantes, mesmo diante de situações de sofrimento ou esgotamento. O excesso de positividade foi apontado como possível mecanismo de silenciamento das dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores, aproximando-se de práticas que dificultam o reconhecimento de problemas e até a identificação de situações de assédio.
Racismo, gênero e sobrecarga cotidiana - A palestra também abordou como o cansaço e o preconceito podem atingir de forma mais intensa grupos historicamente vulnerabilizados. Entre os exemplos discutidos estiveram as múltiplas formas de desgaste enfrentadas por mulheres negras, submetidas a processos cotidianos de discriminação, estereótipos e julgamentos que frequentemente antecedem o reconhecimento de suas capacidades profissionais.
O membro do MPF também apresentou reflexão sobre o chamado “racismo tributário”, expressão utilizada para discutir como desigualdades econômicas e sociais podem ser reforçadas pela própria estrutura de arrecadação do país. O debate destacou que grupos situados na base da pirâmide social, especialmente mulheres negras em maior situação de vulnerabilidade econômica, podem suportar, proporcionalmente, impactos mais intensos da carga tributária.
Ao final, o procurador reforçou a importância de políticas institucionais de prevenção e enfrentamento ao assédio, destacando que ambientes de trabalho saudáveis dependem não apenas de normas formais, mas também de mecanismos permanentes de escuta, acolhimento e reconhecimento das múltiplas formas de discriminação presentes no cotidiano.
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