Direitos do Cidadão
MPF traz para a Paraíba segunda edição da exposição “Mulheres Invisibilizadas”
Mostra reúne histórias de 30 brasileiras e integra programação do Agosto Lilás no estado
Foto: Comunicação MPF
O Ministério Público Federal (MPF) abriu, nesta sexta-feira (28), em João Pessoa (PB), a segunda edição da exposição nacional Mulheres Invisibilizadas, iniciativa da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), por meio da Comissão de Igualdade de Gênero. A mostra apresenta as trajetórias de 30 mulheres brasileiras com atuação relevante em áreas como direitos sociais, política, cultura, ciência e defesa da democracia, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre a participação feminina na formação da sociedade brasileira e dar visibilidade a histórias ainda pouco reconhecidas.
A segunda edição da exposição foi lançada nacionalmente em 19 de agosto, na sede da Procuradoria-Geral da República, em Brasília, e reúne histórias de mulheres negras, indígenas, quilombolas, trabalhadoras, intelectuais, artistas e ativistas de diferentes períodos da história do país. Na Paraíba, a abertura ocorreu durante o Agosto Lilás, mês de conscientização e enfrentamento à violência contra as mulheres, relacionado à Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), sancionada em 7 de agosto de 2006.
A abertura da exposição em João Pessoa reuniu representantes da sociedade civil e de diferentes instituições, entre elas o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), o Ministério Público da Paraíba (MPPB), o Ministério Público do Trabalho (MPT), o Tribunal Regional do Trabalho (TRT), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Defensoria Pública, o Instituto Themis, o Instituto dos Cegos de João Pessoa, igrejas católica e evangélica, veículos de imprensa, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), órgãos do sistema de Justiça, o Coletivo de Mulheres Negras Abayomi, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Amém/PB, a Associação Iguais e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Durante a abertura, a procuradora-chefe da unidade do MPF na Paraíba, Janaina Andrade de Sousa, ressaltou que o enfrentamento à violência contra mulheres e meninas não pode ficar restrito às ações realizadas durante o mês de agosto e destacou a necessidade do envolvimento de toda a sociedade.
“Precisamos que o Agosto Lilás seja todos os dias. Discutir violência contra mulheres e meninas exige um engajamento de toda a sociedade e de todas as instituições”, afirmou. Para Janaina Andrade, o enfrentamento também precisa considerar as diferentes realidades vivenciadas pelas mulheres. “Precisamos tratar a violência contra a mulher de forma interseccional, pela ótica da raça, do gênero, do território, da orientação sexual e da identidade de gênero”, pontuou.
A procuradora também ressaltou o papel da educação e da cultura na transformação desse cenário. “Precisamos estudar, precisamos levar conhecimento para todas e todos para mudar essa realidade. Esse apagamento histórico só pode ser mudado com o envolvimento de toda a sociedade e de todas as instituições”, declarou.
Histórias para conhecer e inspirar - A coordenadora da Comissão de Igualdade de Gênero da PFDC, procuradora regional da República Acácia Suassuna, explicou que a exposição surgiu a partir de uma reflexão sobre mulheres que tiveram papel relevante na história do país, mas cujas trajetórias permanecem pouco conhecidas. A primeira edição reuniu 30 mulheres e, neste ano, outras 30 personalidades foram selecionadas.
“São mulheres que lutaram, sofreram, construíram o alicerce desse país, que têm histórias relevantíssimas e que muitas vezes são desconhecidas da sociedade”, afirmou. Segundo Acácia, a proposta vai além da reparação da invisibilidade histórica. “A ideia é, em especial, que a gente se inspire. Cada um que se inspirar, cada um que se engajar nessa luta, vai contribuir para diminuir esse processo de desigualdade de gênero.”
Acácia também destacou que o combate à violência contra a mulher deve fazer parte do cotidiano. “A gente busca, não só no Agosto Lilás, mas todos os dias, que essa educação, essa conscientização do combate à violência contra a mulher seja um ato diário, faça parte da nossa sociedade”, afirmou.
Mulheres retratadas na exposição - A segunda edição de Mulheres Invisibilizadas apresenta as trajetórias de Ana Montenegro, Amotara Tupinambá, Aqualtune, Clementina de Jesus, Enedina Alves Marques, Eneida de Moraes, Enir Terena, Eny Raimundo Moreira, Fernanda Benvenutty, Gertrudes de Jesus, Isabel Marques, Ivone Lara, Joana Angélica, Laélia de Alcântara, Laudelina de Campos Melo, Luciana de Abreu, Luiza Barros, Mãe Stella de Oxóssi, Magda Renner, Maria Aragão, Maria Beatriz do Nascimento, Maria do Espírito Santo, Maria Firmina dos Reis, Maria Lacerda de Moura, Mércia Albuquerque, Myrthes Gomes, Nísia Floresta, Osvalinda Alves, Patrícia Galvão e Tuíre Kayapó.
Paraíba representada entre as homenageadas - Entre as 30 mulheres retratadas na exposição estão duas personalidades com forte ligação com a Paraíba: Fernanda Benvenuty e Isabel Marques da Silva, conhecida como Zabé da Loca.
Natural de Remígio/PB, Fernanda Benvenuty foi pioneira na luta pelos direitos das pessoas travestis e transexuais no Brasil. Técnica de enfermagem e servidora pública, fundou a Associação das Travestis e Transexuais da Paraíba (Astrapa), integrou a direção da Articulação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e o Conselho Nacional de Saúde. Sua trajetória também foi marcada pela mobilização pelo direito ao uso do nome social e pela participação na campanha Travesti e Respeito, de 2004, iniciativa associada à criação do Dia da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro.
Durante a solenidade, foi exibido um vídeo-depoimento gravado pela jurista e historiadora Clarice Mack, que representa mulheres trans e travestis e, na programação, abordou a trajetória de Fernanda Benvenuty.
Já Isabel Marques da Silva, a Zabé da Loca, nasceu em Pernambuco, mas construiu parte significativa de sua história na Paraíba e se tornou uma das grandes representantes da cultura popular nordestina. Pifeira e compositora, ficou conhecida como "Rainha do Pífano”. Seu apelido surgiu do período de mais de 25 anos em que viveu em uma loca de pedra, uma pequena gruta localizada na zona rural do município de Monteiro, no Cariri paraibano. Posteriormente, passou a morar em uma casa no assentamento Santa Catarina, também em Monteiro.
Zabé teve uma infância marcada por dificuldades e chegou a presenciar a morte de oito irmãos em decorrência da fome, de doenças e da falta de água. Aprendeu a tocar pífano ainda criança, mas permaneceu por décadas distante do reconhecimento público, em razão da pobreza e do isolamento geográfico. Seu talento ganhou projeção no fim da década de 1990, quando gravou o primeiro disco, Da Idade da Pedra, e passou a se apresentar também fora do contexto rural.
Aos 79 anos, em 2003, gravou o segundo CD, Canto do Semiárido, com composições próprias, e, em 2007, lançou Bom Todo. Em 2004, apresentou-se no Fórum Cultural Mundial. Foi condecorada, em 2008, com a Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura e, no ano seguinte, aos 85 anos, recebeu o Prêmio Revelação da Música Popular Brasileira. Em Monteiro, a Associação Cultural Zabé da Loca mantém seu nome como referência à trajetória da artista.
“Nós precisamos realmente fazer essa transcrição e levar mais acessibilidade também para as mulheres com deficiência visual”, destacou a procuradora regional dos Direitos do Cidadão, Janaina Andrade. “A violência contra a mulher é tragicamente democrática, porém ela não atinge as mulheres da mesma forma.
Exposição ganha as ruas de João Pessoa - A divulgação de Mulheres Invisibilizadas ultrapassou os espaços institucionais e chegou ao transporte coletivo de João Pessoa. A pedido do MPF, o Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros no Município de João Pessoa (Sintur) disponibilizou espaço nas traseiras de ônibus da frota da capital para veicular a campanha da exposição.
Os veículos circulam pela cidade com a identidade visual da mostra e um QR code que permite ao público acessar conteúdo relacionado à exposição. A iniciativa amplia o alcance da campanha e leva para o cotidiano da cidade a proposta de tornar conhecidas histórias de mulheres que tiveram suas contribuições pouco reconhecidas ao longo do tempo.
Música e ressocialização - A abertura teve ainda a participação do Coral Vozes Passageiras, formado por mulheres privadas de liberdade da Penitenciária Feminina Maria Júlia Maranhão. O grupo interpretou o Hino Nacional e apresentou repertório dedicado à valorização das mulheres, de suas trajetórias, expressões e contribuições para a sociedade.
Criado há dez anos, o coral integra projeto de ressocialização por meio da música, conta com o apoio da juíza auxiliar da Vara das Execuções Penais da Capital, Andréa Arcoverde, e reúne cerca de 45 coralistas, além dos músicos da banda.
Educação, visibilidade e participação dos homens - A escritora e professora da UFPB Patrícia Rosas compartilhou sua própria trajetória, marcada pela pobreza durante a infância, quando chegou a morar com a família em um lixão em Campina Grande. Patrícia relatou que encontrou na educação um caminho para transformar sua história e evitar que sua voz fosse apagada.
“Hoje eu sou professora da Universidade Federal da Paraíba. Entrei na universidade porque encontrei na escola, na sala de aula, o meu lugar de permanência. Estar na educação foi o meu jeito de não ser apagada”, declarou.
Ao falar sobre sua produção literária A Voz do Cadáver, dedicada às histórias de mulheres, reforçou a importância de ouvir essas vozes antes que sejam silenciadas pela violência. “Nós resistimos para que as nossas vozes não sejam passageiras, não sejam apagadas, mas sejam sempre lembradas”, observou.
A promotora de Justiça Dulcerita Alves, coordenadora do CAO Mulheres, chamou atenção para a necessidade de dar visibilidade tanto às mulheres privadas de liberdade quanto à produção intelectual feminina. Para ela, o enfrentamento à violência de gênero precisa envolver também os homens.
“Essa luta não é só das mulheres. Nós precisamos trazer os homens para o nosso lado”, afirmou. Dulcerita também ressaltou a necessidade de ampliar a presença de autoras nas referências acadêmicas e jurídicas. Segundo ela, “mulheres escrevem sobre justiça social, mulheres escrevem poesia, mulheres escrevem sobre violência doméstica. Elas precisam ser visibilizadas.”
O promotor de Justiça Dimitri Nóbrega Amorim também defendeu maior participação masculina no enfrentamento à violência de gênero. “Acho que é necessário engajar mais homens nessa defesa das mulheres, para o reconhecimento e preservação dos direitos da mulher”, afirmou. Para Dimitri, além da resposta penal, é necessário investir em educação e transformação cultural. “O que resolve é educação. A gente tem que quebrar uma cultura, e isso depende efetivamente dessa nova geração”, destacou.
Biblioteca valoriza mulheres que escrevem a Justiça - A programação contou também com a Biblioteca Itinerante Mulheres que Escrevem a Justiça, iniciativa do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), por meio do Comitê de Incentivo à Participação Institucional Feminina no Poder Judiciário. O projeto reúne obras escritas por mulheres e publicações relacionadas à participação feminina na sociedade e no sistema de Justiça.
A biblioteca percorre instituições e espaços públicos da Paraíba para incentivar a leitura e a pesquisa, ampliar a visibilidade da produção intelectual feminina e estimular a reflexão sobre a presença e a contribuição das mulheres nos espaços de Justiça.
A presidente do Comitê de Incentivo à Participação Institucional Feminina no Poder Judiciário, desembargadora Fátima Maranhão, destacou a união das iniciativas e a importância de valorizar as mulheres que contribuíram para a construção de uma sociedade mais justa e para a produção intelectual no sistema de Justiça.
“Neste Agosto Lilás, o Ministério Público Federal apresenta ao Estado da Paraíba a 2ª edição da exposição ‘Mulheres Invisibilizadas’, um trabalho que chama a atenção para as mulheres que deram suas vidas, derramaram seu sangue, multiplicaram seu tempo e sua esperança em prol de uma sociedade mais justa e equânime”, afirmou.
Fátima Maranhão ressaltou ainda a participação do Tribunal de Justiça da Paraíba na programação, por meio da Biblioteca Itinerante “Mulheres que Escrevem a Justiça”. “Esse projeto de valorização de escritoras é um braço do Comitê de Incentivo à Participação Institucional Feminina no Poder Judiciário, o qual temos a honra de presidir”, destacou.
Para a desembargadora, as iniciativas convergem no propósito de ampliar o reconhecimento e a participação feminina. “Estamos juntos nesses ideais, mulheres e homens, na construção de um mundo novo, mais fraterno e feliz”, concluiu.
A juíza Isa Mônia Vanessa de Freitas Paiva, coordenadora do Comitê, explicou que a biblioteca nasceu da constatação da baixa presença de autoras entre as referências utilizadas em decisões judiciais. A proposta foi tornar mais visível e concreto o trabalho de escritoras e especialistas. “Resolvemos tornar isso mais concreto, mais real, através da exposição dos livros”, afirmou. Segundo a magistrada, o acervo é itinerante e já passou por diferentes instituições e espaços. “Nossa intenção é levar ao máximo esses livros e ampliar cada vez mais a divulgação das autoras”, ressaltou.
Cartilha para enfrentamento à violência de gênero - A programação contou ainda com a participação da professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Alessandra Correia Lima Macedo França, coordenadora do projeto de extensão Just Imagine – Ano 5. Ela apresentou o guia Violência de gênero – Guia de enfrentamento, desenvolvido com o objetivo de disponibilizar informações jurídicas em linguagem simples, acessível e com recursos visuais.
“O direito precisa ser essa porta aberta, fácil de abrir”, afirmou Alessandra, ao explicar a preocupação em tornar as informações compreensíveis também para quem não pertence ao universo jurídico. “A ideia é oferecer direções, guiar nesse caminho que às vezes nem nós, que somos do direito, compreendemos tudo.”
Clique aqui para acessar a cartilha
Leis em braille ampliam acessibilidade - Ainda dentro da programação do Agosto Lilás, o MPF reuniu, na quinta-feira (27), representantes da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Fundação Centro Integrado de Apoio à Pessoa com Deficiência (Funad) e Instituto dos Cegos da Paraíba Adalgisa Cunha para articular a produção e disponibilização, em braille, da Lei Maria da Penha, da Lei do Minuto Seguinte e da legislação de combate à violência política de gênero. A iniciativa busca ampliar o acesso de mulheres com deficiência visual a informações sobre seus direitos.
As instituições manifestaram disponibilidade para colaborar com a produção dos materiais. UEPB, UFPB e Instituto dos Cegos se comprometeram a fornecer duas cópias em braille de cada legislação. A Funad, que já possui a Lei Maria da Penha transcrita, também participará da iniciativa e sugeriu a elaboração de uma cartilha reunindo legislações relacionadas ao enfrentamento da violência contra a mulher.
Visitação - A segunda edição de Mulheres Invisibilizadas permanece aberta ao público na sede do MPF na Paraíba até 28 de setembro, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h. A exposição também possui versão virtual, ampliando o acesso às trajetórias apresentadas (Clique aqui).
CLIQUE AQUI e confira imagens do evento de abertura
Serviço
Exposição: Mulheres Invisibilizadas – 2ª edição
Visitação: até 28 de setembro de 2026
Horário: das 9h às 17h, de segunda a sexta-feira
Local: sede do MPF na Paraíba – Av. Epitácio Pessoa, 1800, João Pessoa (PB)
Entrada: gratuita e aberta ao público.
Exposição virtual: clique aqui para acessar
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