Comunidades Tradicionais
MPF visita Axé Pratagy, em diálogo com comunidade de matriz africana em Maceió/AL
Encontro promoveu aproximação institucional e troca de saberes sobre ancestralidade, religiosidade, cultura e relação com a natureza
Foto: Comunicação MPF/AL
O Ministério Público Federal (MPF) realizou, na manhã desta terça-feira (1º), visita institucional ao Axé Pratagy, no litoral norte de Maceió, como parte das ações de aproximação e diálogo com comunidades tradicionais de matriz africana em Alagoas. A iniciativa buscou conhecer de perto o espaço, sua história e suas atividades, além de ampliar a compreensão sobre tradições religiosas e culturais historicamente marcadas pelo preconceito e pela intolerância.
A visita foi realizada pelo procurador da República Eliabe Soares, titular do único ofício de comunidades tradicionais do MPF em Alagoas, acompanhado do antropólogo do MPF Ivan Soares Farias. Os representantes da instituição foram recebidos por Pai Célio de Iemanjá (Célio Rodrigues dos Santos), babalorixá, historiador e dirigente do terreiro Axé Pratagy e da Casa de Iemanjá (Ilê Axé Iyá Ogunté).
O encontro se transformou em um momento de escuta e aprendizado. Ao percorrer o terreiro, Pai Célio – que vem de família que está há gerações na Jurema e no Candomblé – compartilhou conhecimentos sobre a história da religião de matriz africana em Alagoas, ancestralidade, fé, cultura e a transmissão de saberes entre gerações.
Entre os temas abordados esteve a relação profunda entre religiosidade e natureza. No Candomblé, elementos naturais integram a própria compreensão do sagrado, e plantas e ervas ocupam lugar importante nos conhecimentos e práticas tradicionais. O Axé Pratagy materializa essa relação: cercado por remanescentes de Mata Atlântica, pelo Rio Pratagy e o mar de Guaxuma, o espaço reúne árvores frutíferas, plantas e ervas consideradas sagradas, além de horta orgânica e área para produção de mudas.
Pai Célio também apresentou aspectos da Jurema, tradição igualmente presente na trajetória religiosa da casa, permitindo aos representantes do MPF conhecer um pouco mais sobre suas práticas, sua relação com entidades espirituais e a presença de conhecimentos de diferentes matrizes na formação da religiosidade afro-brasileira em Alagoas.
Memória, cultura e resistência
A conversa também percorreu a história de resistência das religiões de matriz africana, especialmente após o Quebra de Xangô, em 1912. A aproximação com essa memória ajuda a compreender não apenas as práticas religiosas, mas os processos históricos de perseguição e silenciamento enfrentados pelos povos de terreiro e a importância da preservação de seus saberes, espaços e manifestações culturais.
Para o procurador da República Eliabe Soares, a visita permite ao MPF conhecer melhor as comunidades com as quais dialoga e compreender suas demandas a partir da realidade vivenciada por elas.
“Estar presente, ouvir e conhecer são passos fundamentais para uma atuação institucional mais próxima das comunidades. Foi uma oportunidade de aprender sobre uma tradição que reúne história, fé, ancestralidade, cultura e uma relação muito própria com a natureza. Esse conhecimento também é importante para que possamos contribuir, dentro das atribuições do MPF, para a garantia da liberdade religiosa e o enfrentamento ao preconceito e à intolerância”, destacou.
Axé Pratagy
Localizado em Riacho Doce, no litoral norte de Maceió, o Axé Pratagy é também um espaço de preservação e difusão da cultura afro-brasileira. Concebido como museu a céu aberto, reúne atividades religiosas, educativas e culturais, além de espaços dedicados aos orixás, à memória e à convivência comunitária.
A visita integra a perspectiva de aproximação do MPF com povos e comunidades tradicionais, reconhecendo a escuta e o conhecimento de seus modos de vida, saberes e práticas como elementos importantes para a promoção e proteção de direitos.