Direitos do Cidadão
Arte e infância ocupam Memorial do MPF em exposição no Rio sobre afeto e proteção digital
Mostra reúne arte, debate e experiências interativas sobre o direito ao brincar e a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital
Foto: Comunicação/MPF.
A infância ocupou o centro do auditório da sede do Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro (RJ) quando Rafaela Andrade, de 11 anos, decidiu fazer uma pergunta. Cercada por autoridades, artistas e especialistas convidados para a abertura da exposição “O Livre Brincar no Mundo dos Afetos”, ela resumiu em poucas palavras uma preocupação que acompanha crianças e adolescentes nas redes sociais: “Eu queria saber o que fazer quando encontrar machistas, porque a principal coisa que encontramos nos comentários na internet são pessoas rebaixando as mulheres”. Não havia provocação, nem discurso ensaiado — apenas a honestidade inquietante de quem já percebeu, muito cedo, a violência escondida atrás das telas. O auditório silenciou.
A fala da menina acabou traduzindo, de forma direta e profundamente humana, o principal eixo da mostra inaugurada nesta terça-feira (20), no Memorial da Procuradoria da República no Rio de Janeiro (PR/RJ): refletir sobre os impactos do ambiente digital na infância e sobre a necessidade urgente de proteger crianças e adolescentes em uma sociedade cada vez mais hiperconectada.
Promovida pelo MPF, a exposição reúne obras, instalações e experiências interativas que propõem um reencontro com o brincar, os vínculos afetivos e a convivência presencial, ao mesmo tempo em que lança um olhar crítico sobre o excesso de telas, a digitalização precoce e as múltiplas formas de violência que atravessam o cotidiano virtual das novas gerações. Mais do que uma mostra artística, o evento transformou o espaço institucional do MPF em um ambiente de escuta, memória, sensibilidade e defesa da infância.
Ao responder Rafaela, a procuradora da República Gabriela Pereira destacou que denúncias podem ser feitas tanto ao MPF quanto à SaferNet, organização parceira do trabalho de enfrentamento aos crimes digitais. Ela também lembrou que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital ampliou as obrigações das plataformas na remoção rápida de conteúdos ofensivos e na criação de canais acessíveis de denúncia.
A advogada Ana Cláudia Cifali, do Instituto Alana, reforçou que a nova legislação busca justamente garantir ambientes digitais mais seguros para crianças e adolescentes. O diálogo entre a menina e a mesa emocionou o público e deu o tom humanizado da abertura.
Abertura da exposição – Na mesa de abertura, a procuradora-chefe da PR/RJ, Carmen Santana, destacou que discutir infância é discutir o próprio futuro da sociedade. Em sua fala, ela lembrou que a ideia de proteção integral à criança é relativamente recente na história e ressaltou a importância da Constituição de 1988 e do ECA na consolidação desses direitos. Ela também relacionou a exposição ao avanço das tecnologias e ao distanciamento humano provocado pelo excesso de telas. “Eu acho que está faltando conexão humana hoje em dia”, afirmou a procuradora-chefe, ao defender o resgate das brincadeiras tradicionais, da convivência e das experiências presenciais.
A procuradora da República Fabiana Schneider, curadora da exposição, explicou que a proposta nasceu a partir da atuação do MPF no combate aos crimes cibernéticos contra crianças e adolescentes. Segundo ela, o desafio da curadoria era abordar um tema extremamente duro sem reproduzir violência dentro do espaço do Memorial. A saída encontrada foi falar sobre aquilo que muitas vezes desaparece silenciosamente diante da hiperconectividade: o direito ao brincar. “É um tema muito sério, que é o direito fundamental ao brincar”, afirmou.
Fabiana destacou, ainda, que o Memorial busca aproximar arte, cidadania e reflexão institucional. Para ela, a arte tem a capacidade de provocar transformações profundas justamente porque alcança lugares onde discursos jurídicos nem sempre conseguem chegar.
A procuradora Gabriela Pereira, integrante do Grupo de Apoio sobre Criminalidade Cibernética do MPF, lembrou que o órgão atua desde 2003 no enfrentamento de crimes praticados contra crianças na internet. Segundo ela, a experiência acumulada mostrou que repressão e prevenção precisam caminhar juntas. “Às vezes, se a criança ou o adolescente soubesse dos riscos, talvez esse crime não tivesse acontecido”, afirmou.
Gabriela também destacou a importância dos afetos, da escuta e da convivência real como formas de proteção. “É só com o diálogo, com a convivência e com um universo de proteção que a gente consegue criar conscientização sobre os riscos”, disse.
Proteção de direitos – Um dos fundadores da SaferNet Brasil, Thiago Tavares relembrou a parceria histórica da organização com o MPF no combate aos crimes cibernéticos. Ele citou ações pioneiras do órgão desde os anos 2000, incluindo a atuação que levou o Google a colaborar com investigações relacionadas à exploração sexual infantil no extinto Orkut.
Thiago destacou que as redes sociais são recentes na história humana, mas já transformaram profundamente as relações sociais e afetivas. “O que vai nos separar das máquinas é justamente o afeto”, afirmou. Ele também ressaltou o papel das instituições democráticas e das organizações da sociedade civil na defesa de direitos em tempos de rápidas transformações tecnológicas.
Já Ana Cláudia Cifali, do Instituto Alana, trouxe para o debate a importância do brincar como direito fundamental e como instrumento de prevenção de violências. Citando pesquisas, legislações recentes e relatos de crianças, ela defendeu a ampliação de espaços públicos de convivência, natureza e socialização. “O brincar é uma ação constitutiva do ser humano”, afirmou.
Ela também chamou atenção para o afastamento crescente das crianças da natureza e para os impactos do excesso de telas na saúde mental, na criatividade e no desenvolvimento emocional.
Entre obras, memórias e experiências – Após a mesa de abertura, o evento seguiu com um debate artístico sobre a concepção da exposição. A curadora Ingrid Kraus explicou que a proposta foi “naturalizar” o espaço institucional do Memorial, trazendo luz natural, interação e experiências sensoriais. Segundo ela, o objetivo era provocar outra relação do público com o ambiente. Durante o debate, Ingrid levantou uma reflexão sobre como brincar ainda encontra barreiras em espaços formais e institucionais.
O artista chileno Pablo Rodriguez Blanco, convidado da mostra, falou sobre as dificuldades que adultos e instituições ainda têm em permitir experiências livres e espontâneas com a arte. Segundo ele, muitas vezes as crianças tentam tocar obras interativas, mas são imediatamente impedidas pelos próprios adultos.
Para o curador Olav Alexander, iniciativas como a exposição precisam ocupar mais espaços institucionais. “Está na hora de colocar artistas nas empresas, no governo e em todos os lugares de convívio”, afirmou. Ele também refletiu sobre a necessidade de preservar a criança interior mesmo na vida adulta, especialmente em um contexto marcado pelo excesso de telas e pela aceleração cotidiana.
O artista Zé Tepedino falou sobre o processo artístico como um trabalho intenso, disciplinado e profundamente ligado à experimentação. Segundo ele, criar arte exige convivência diária com dúvidas, pesquisa e inquietações.
Já o artista Zé Reis apresentou uma obra construída a partir de áudios gravados em fitas cassetes com relatos de integrantes do próprio MPF. A instalação reúne memórias de infância, afetos e experiências pessoais de membros, servidores e familiares da instituição. “Quis pensar quem é a pessoa por trás do cargo”, explicou.
Um espaço de convivência e reflexão – A exposição ficará aberta ao público até novembro no Memorial da PR/RJ. A mostra reúne trabalhos de artistas como Claudia Andujar, Ernesto Neto, Lucia Koch, Pablo Rodriguez Blanco, Zé Reis e Zé Tepedino, entre outros. Além das obras, a programação prevê oficinas, debates e exibições voltadas à infância, à educação digital e à convivência intergeracional.
Ao final da abertura, enquanto adultos ainda refletiam sobre leis, algoritmos e direitos fundamentais, a pergunta de Rafaela permanecia ecoando no auditório — simples, direta e urgente. Talvez porque poucas coisas revelem tão bem o mundo em que vivemos quanto uma criança de 11 anos já saber, cedo demais, que a internet também pode ser um lugar de violência.
Serviço
A exposição “O Livre Brincar no Mundo dos Afetos” estará aberta à visitação pública a partir de 21 de maio de 2026, de segunda a sexta-feira, das 12h às 17h, no Memorial da Procuradoria da República no Rio de Janeiro, localizado na Av. Nilo Peçanha, nº 31, 6º andar, Centro do Rio de Janeiro.
Visitas guiadas para grupos podem ser agendadas pelo e-mail: prrj-memorial@mpf.mp.br.
Veja AQUI a galeria de fotos do evento de abertura
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