Meio Ambiente
MPF fiscaliza projeto de recuperação do Rio Urucuia em Arinos (MG)
Iniciativa utiliza recursos de multas ambientais para restaurar 520 hectares de vegetação nativa na região eternizada por Guimarães Rosa
Foto: MPF
O Ministério Público Federal (MPF) realizou uma inspeção técnica para acompanhar de perto o avanço do Projeto Pró-Águas Urucuia, no distrito de Sagarana, em Arinos (MG). A iniciativa busca recuperar áreas degradadas na bacia do Rio Urucuia, utilizando recursos de multas aplicadas à Petrobras por irregularidades ambientais, convertidos em restauração por meio de um acordo judicial. Sob a coordenação do procurador da República Carlos Bruno Ferreira da Silva, a vistoria confirmou que a vida está voltando a florescer nas margens dos rios que inspiraram a literatura nacional.
Mediado pelo MPF e pela Advocacia-Geral da União (AGU) e homologado entre 2022 e 2023, o acordo garantiu que os valores de multas fossem destinados diretamente ao Instituto Espinhaço, entidade responsável por executar o plantio e a conservação do solo no campo.
A meta do projeto é recuperar 520 hectares na bacia, sendo 364 hectares voltados para o plantio de árvores nativas e 156 hectares para técnicas que evitam a erosão e ajudam a “plantar água” no solo – técnicas ecológicas para facilitar a infiltração e a retenção da água da chuva na terra, abastecendo os lençóis freáticos e recuperando nascentes. Até o momento, cerca de 50 hectares já receberam intervenções.
Resultados práticos – Durante a inspeção em uma das propriedades, às margens do Ribeirão da Ilha, a equipe técnica constatou um resultado significativo: 98% das mudas plantadas sobreviveram, um índice considerado altíssimo para a região. Foram identificadas espécies típicas do Cerrado, como o Jacarandá, o Cedro Rosa, o Angico e o Jenipapo, todas selecionadas para respeitar a vegetação original do local.
As plantas nativas atraem aves e insetos que, ao se alimentarem, espalham novas sementes para além das áreas cercadas, em um processo natural chamado de zoocoria. Isso cria um efeito multiplicador que garante que a floresta continue crescendo sozinha no futuro, combatendo o assoreamento e garantindo a saúde das águas.
As atividades seguem o ritmo da natureza: enquanto o período seco é dedicado à preparação do solo e cercamento, o plantio ganha força na época das chuvas, entre outubro e novembro, garantindo que as raízes se firmem na terra.
“As diligências confirmaram o progresso técnico e organizado do acordo, honrando tanto a preservação do meio ambiente quanto o legado histórico e cultural do sertão”, afirmou o procurador Carlos Bruno Ferreira da Silva ao concluir o relatório de inspeção.
Impacto cultural – A escolha de Sagarana não é por acaso. Em 2026, celebram-se os 70 anos da obra Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, que imortalizou o Rio Urucuia em suas páginas. O resgate das margens do Urucuia é, portanto, não apenas uma reparação ecológica, mas também a preservação de um patrimônio cultural e literário brasileiro.
As atividades de implementação e monitoramento do projeto Pró-Águas Urucuia devem seguir até junho de 2028.
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