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Meio Ambiente

MPF recomenda criação de sistema nacional para monitorar contaminação por mercúrio com foco na Amazônia

Iniciativa busca proteger comunidades indígenas e ribeirinhas expostas a níveis de toxicidade acima do limite da OMS

Data: 09/04/2026 • 18:00 Unidade: Procuradoria da República no Amazonas
Esta imagem captura, de forma realista, as mãos calejadas de um garimpeiro trabalhando em um rio. Ele segura uma grande peneira de madeira, onde há água, pequenas pedras e partículas douradas brilhando, indicando a presença de ouro. Uma gota prateada de mercúrio está visível na peneira, sugerindo o uso do metal pesado no processo de separação do ouro. O garimpeiro está ajoelhado, com a água turva do rio correndo ao fundo e a vegetação densa da mata ciliar visível. A iluminação natural destaca as texturas da pele, da madeira e das pedras. A profundidade de campo rasa foca a atenção na ação principal.

Imagem ilustrativa. Fonte: IA Gemini.

O Ministério Público Federal (MPF) expediu recomendação a órgãos federais e estaduais para a criação de um Sistema Nacional de Monitoramento da Contaminação por Mercúrio, com destaque para a Amazônia. A iniciativa busca estabelecer uma governança de dados sólida para enfrentar a grave contaminação ambiental e humana pelo metal detectada em diversas bacias hidrográficas da região e propõe medidas para rastreabilidade de exames e comunicação de riscos.

No plano federal, a recomendação foi encaminhada à Secretaria Nacional de Meio Ambiente e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (SQA/MMA), ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e à Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde (SVSA/MS). Em âmbito estadual, o documento foi enviado ao Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), à Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental de Rondônia (Sedam/RO), à Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Roraima (Femarh) e às secretarias de Saúde.

O procurador da República André Luiz Porreca Ferreira Cunha, titular do 2º Ofício da Amazônia Ocidental do MPF, destaca que o objetivo é promover uma atuação coordenada contra os riscos do uso de mercúrio no garimpo ilegal de ouro. A unidade é especializada no combate à mineração ilegal nos estados do Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia.

Gravidade da contaminação – Laudos periciais da Polícia Federal (PF) e estudos de instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Greenpeace e o WWF-Brasil confirmaram altas concentrações do metal em peixes e sedimentos. O Greenpeace informou níveis de contaminação muito superiores ao limite de segurança de 0,5 μg/g estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em alguns casos, a ingestão de mercúrio chegou a ser 26,7 vezes maior do que a dose de referência da Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos (EUA).

Análise na região de Porto Velho (RO) revelou que 26,1 % dos peixes coletados no estudo apresentaram níveis superiores ao recomendado. Entre os grupos mais vulneráveis, observou-se que mulheres em idade fértil ingerem aproximadamente 8 vezes mais mercúrio do que o recomendado, enquanto crianças de 2 a 4 anos ingerem 27 vezes a dose segura. O WWF-Brasil apontou que 21,3% dos peixes comercializados em centros urbanos amazônicos estão contaminados, evidenciando o padrão de bioacumulação na cadeia alimentar.

O MPF fundamenta a recomendação no dever constitucional do Estado de garantir o direito ao meio ambiente equilibrado e à saúde, o que exige ações preventivas contra riscos sanitários e ambientais associados ao mercúrio. A peça ressalta que essa atuação é reforçada pela Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938/1981) e pela Convenção de Minamata (Decreto nº 9.470/2018), tratado internacional que classifica o metal como substância de preocupação global e estabelece diretrizes para seu controle.

Medidas – O MPF recomenda que o Ministério do Meio Ambiente crie o Sistema Nacional de Monitoramento da Contaminação por Mercúrio, com foco na Amazônia, e apresente cronograma para sua implementação. A plataforma deve ser pública, georreferenciada e seguir diretrizes técnicas nacionais de monitoramento. Ao Ibama, foi orientada a criação de uma rotina permanente para coletar e sistematizar dados ambientais em áreas impactadas pela mineração. O órgão deve padronizar metodologias de registro, armazenamento e análise de dados.

Para o Ministério da Saúde, a recomendação foca na articulação de dados ambientais e epidemiológicos e na estruturação de estratégia de vigilância de populações expostas na Amazônia. As medidas incluem a padronização de fluxos de notificação de intoxicação e a publicação de boletins técnicos periódicos sobre a situação sanitária.

Aos órgãos estaduais de meio ambiente, solicitou-se o monitoramento permanente do mercúrio na água, nos sedimentos e nos peixes, com plano amostral por bacia hidrográfica e a publicação de relatórios periódicos. Às secretarias de saúde, recomendou-se a consolidação de bases de dados sobre notificações de intoxicação pelo metal, com a estruturação do fluxo de vigilância e resposta a suspeitas de exposição, além de ações de comunicação de risco para as populações.

Os órgãos têm o prazo de 30 dias para informar sobre o acatamento das recomendações. O descumprimento poderá levar à adoção de medidas administrativas e ações judiciais cabíveis.

Íntegra da Recomendação

Assessoria de Comunicação Social
Ministério Público Federal no Amazonas
Telefones: (92) 2129-4734 | (92) 98415-5277
E-mail: ascom-pram@mpf.mp.br
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