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Indígenas

MPF promove visitas de escuta em duas aldeias Guarani na cidade de SP sobre acesso à água segura e outras demandas

Lideranças foram ouvidas por gestores públicos, privados e pesquisadores da saúde, meio ambiente, abastecimento, saneamento, entre outros

Data: 17/06/2026 • 17:39 Unidade: Procuradoria Regional da República da 3ª Região
Foto mostra um homem indígena falando num local com paredes marrons, feitas de troncos e tijolos, com um grande cocar amarelo ao centro e um violão pregado numa das paredes.

Foto: Comunicação/MPF/PRR3

O Ministério Público Federal (MPF) promoveu na quinta-feira (11) visita para escuta e continuidade de atividades presenciais de levantamento de diagnósticos situacionais e de pré-consulta livre, prévia e informada nas Aldeias Indígenas Pyau e Itakupe, do Jaraguá, na cidade de São Paulo (SP), iniciadas em março de 2025. O principal assunto tratado foi o direito de acesso à água de qualidade e ao saneamento, com a possibilidade de futura instalação de equipamentos para fornecimento e de tratabilidade da água no local, bem como a logística necessária para que estes serviços sejam realizados com eficiência e perenidade, esclarecendo dúvidas técnicas e jurídicas quanto a atribuições e responsabilidades na prestação dos serviços de saneamento, em zona urbana, rural e periurbana, além de outras demandas.

A Terra Indígena do Jaraguá, localizada na capital paulista, tem 536 hectares e abriga cerca de mil indígenas da etnia Guarani Mbya, divididos em sete Tekoas, termo Guarani para aldeia. Além das Tekoas Pyau e Itakupe, que foram objeto das visitas, compõem o território as Tekoas Yvy Porã, Ita Endy, Ita Vera, Ytu, Pindo Mirĩ, segundo indicou a liderança da Tekoa Pyau, Michael Tupã. 

O MPF reuniu no encontro representantes da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), da Funasa/São Paulo (Fundação Nacional de Saúde); representantes do terceiro setor do Instituto de Direito e Cidadania e do Instituto Mondó. Participaram ainda, representantes públicos e privados em gestão, governança e tratabilidade da água da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), do Instituto Pasteur e da empresa Fysi Tecnologias Ambientais. 

Reunião_Pyau

O MPF esteve representado pela procuradora regional da República Sandra Akemi Shimada Kishi, titular do 1º Ofício de Administração Comunidades Tradicionais (1º Ocita) da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão (Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais) do MPF e também coordenadora do Projeto Conexão Água, apoiado pela 4ª Câmara de Coordenação e Revisão (Meio Ambiente e Patrimônio Cultural) do MPF; e pela procuradora regional da República Ana Carolina Previtalli Nascimento, coordenadora da Comissão Liberdades – crença expressão e pensamento, da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC).

Dança-Tekoa PyauA Visita aos territórios indígenas – As atividades iniciaram-se na Tekoa Pyau, onde ocorreu um ritual de acolhimento com cânticos e danças Guarani. Michael Tupã, uma das lideranças indígenas da Tekoa Pyau, recepcionou as equipes visitantes, ressaltando a importância desse encontro para dialogar sobre os problemas enfrentados pela comunidade Guarani. 

“Um dos grandes problemas que enfrentamos é o abandono de animais (cães) nas terras da aldeia. Hoje tem mais animais do que pessoas aqui. Os moradores têm dificuldade de acessar a própria casa”, explicou. “Os banheiros coletivos também precisam de reforma e alguns que não estão funcionando precisam ser reativados no momento estão cerrados para evitar vazamentos de água”, destacou. A liderança  ainda lembrou que atualmente há a construção de uma escola dentro da aldeia; obra que encontra-se atrasada, com promessa de ser concluída até agosto. Sua conclusão ajudaria na mobilidade, prevenindo as crianças tenham que se deslocar para  longe até outras escolas.

Sandra Kishi e a vice-cacique Para YvotySandra Kishi ressaltou que  “ao promover esse diálogo necessário nos territórios, o MPF acaba zelando pela efetiva justiça ambiental, social, climática e segurança da água, aproximando as comunidades tradicionais e vulneráveis, em igualdade de condições para serem escutados diretamente pelos gestores públicos e privados sobre suas demandas de acesso a direitos fundamentais.”.

Para Ana Previtalli, “as visitas revelam serem necessárias medidas urgentes e emergenciais para a proteção dos indígenas das aldeias Guarani, que se encontram notoriamente  privados de seus direitos fundamentais à saúde, moradia e educação, não obstante estejam sediados na maior cidade de nosso país”.

Depois de ouvir todas as lideranças, inclusive jovens e mulheres indígenas e os agentes de saúde, cultura e saneamento indígenas sobre suas demandas, as instituições, por seus gestores, propuseram alternativas e soluções, além dos meios para viabilizá-las e sugestões de acionamento de outros órgãos e entidades que possam, em conjunto, atuarem na efetiva resolução dos problemas.

À tarde o grupo seguiu para a Tekoa Itakupe, tendo sido recebidos por Jeferson Xondaro, liderança local. Na ocasião Jeferson  descreveu um pouco a organização da aldeia e relatou algumas das demandas prioritárias da comunidade.  Nesta Tekoa a demanda mais urgente diz respeito ao acesso à água de qualidade. Segundo relato da liderança, a comunidade indígena local já chegou a ficar, num passado recente, cerca de 20 dias sem água. Isso porque, mesmo com algumas bombas de água instaladas, a aldeia, por não estar conectada à rede de distribuição de energia elétrica, não consegue ter acesso à água dos recentes poços artesianos construídos. 

“Sofremos muito com as doenças causadas pela água não tratada, em especial as crianças da aldeia. A estrada não permite acesso rápido a hospitais e aos postos de saúde. Já perdemos algumas crianças por conta dessa situação”, enfatizou Jeferson.

A escuta ativa e dialógica em nível de pré-consulta prévia permitiram o encontro direto dos indígenas com atores, gestores e profissionais da área de saúde, saneamento, vigilância sanitária, vigilância em saude ambiental e institutos de direitos humanos, de educação social e direitos socioambientais , com competência e meios efetivos para desvencilhar gargalos e desafios diante da falta de interlocução dos órgãos, das supostas sobreposições de atribuições e lacunas de responsabilidades para atender às demandas prioritárias de forma facilitada para o saneamento indígena em zona urbana e periurbana. 

Tekoa Itakupe (5).jpegApós a escuta da liderança indígena, o grupo realizou uma incursão guiada na mata atlântica, que circunda a aldeia, para vistoria do sistema atual de captação de água de nascente, em que se detectaram vazamentos nas tubulações improvisadas. 

A visita do MPF e dos demais atores convidados foi concomitante à  iniciativa do Instituto Estudos Direito e Cidadania de doação de cobertores e alimentos às aldeias Guarani visitadas. 

Medidas emergenciais sugeridas e adotadas – No mesmo dia da visita, o setor de zoonose do Instituto Pasteur foi acionado pela representante da Funasa. Por sua vez, a representante do Distrito Sanitário Especial Indígena da Secretaria Especial de Saúde Indígena (DSEI/SESAI) do Ministério da Saúde e representantes da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) dialogaram sobre uma possível cooperação interinstitucional. O DSEI/SESAI e o MPF comprometeram-se a buscar informações junto ao Ministério dos Povos Indígenas sobre a continuidade do projeto de poços artesianos, para a instalação de um efetivo sistema de fornecimento de energia elétrica que possibilite o funcionamento das bombas do poço artesiano já construído, na Aldeia Itakupe. 

A Sabesp se comprometeu a dar celeridade aos trabalhos de um censo rural local, para posteriormente propor soluções estruturantes e sustentáveis, para as demandas ligadas ao fornecimento de água potável e coleta e tratamento de esgoto nas aldeias. A empresa garantiu que todas as soluções a serem sugeridas serão pactuadas com as comunidades através do processo de consulta livre, prévia e informada, como prescrito na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). 

O projeto Conexão Água da 4ª Câmara do MPF solicitará que a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) realize coleta e análise de água das nascentes que atualmente abastecem a aldeia Itakupe.  Foi agendada reunião, na sequência, para discussão das soluções possíveis diante da vistoria nos equipamentos para possíveis sistemas biodigestores e outras medidas complementares a serem discutidas pelas empresas de tratabilidade da água e monitoramento que participarem das visitas às aldeias, no Pico do Jaraguá.

O artista plástico Gejo, arte-comunicador, sugeriu visita do grupo ao Centro Cultural São Paulo, (CCSP), com participação da curadora do CCSP, com exposições sobre os temas tratados na visita, conectando-os a futuros projetos. 

Quanto às demandas atinentes aos direitos territoriais pelas lideranças guarani, Sandra Kishi sugeriu o cadastro dos territórios indígenas, demarcados ou não, nas dimensões corretas pleiteadas pelo povo guarani, bem assim de seus modos de vida e cultura tradicionais, como os sistemas agroflorestais indígenas, na Plataforma de Territórios Tradicionais do Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT), apoiada pelo MPF e pelo CNPCT.

O Projeto Conexão Água da 4ª Câmara do MPF, o Ofício Comunidades Tradicionais da 6ª Câmara de Coordenação Ambiental (Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais) do MPF e a coordenação da Comissão Liberdades: Crença Expressão e Pensamento da PFDC reuniram nesta roda de diálogos nas aldeias Guarani os seguintes órgãos: Funasa (quatro gestores) , Sabesp (oito gestores e um antropólogo), DSEI/SESAI Ministério da Saúde  (três gestores), um artista plástico (arte-comunicação), uma psicóloga facilitadora, um agente indígena de saneamento, um agente de saúde e um agente de cultura, quatro profissionais e dois CEOs empresas de saneamento e soluções alternativas coletivas em tratabilidade da água e em monitoramento de qualidade da água, representantes e dirigentes de dois Institutos do 3º Setor em direitos humanos, direitos socioambientais e de educação social, dois membros do MPF da 4ª e 6ª Câmaras e da PFDC, dois analistas assessores, seis agentes da Polícia do MPU e a assessoria de comunicação social de uma das unidades do MPF.

Clique aqui para ver a galeria de fotos da visita.


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