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Criminal

Após denúncia do MPF, “coaches de sedução” são condenados por turismo sexual para estrangeiros em São Paulo

Réus promoveram curso sobre técnicas de conquista, que incluiu a realização de uma festa com a participação de adolescentes

Data: 09/04/2026 • 16:42 Unidade: Procuradoria da República em São Paulo
Imagem mostra pessoas em uma festa, com taças na mão e um DJ ao fundo

Imagem ilustrativa. Fonte: Canva.

A pedido do Ministério Público Federal (MPF), dois homens foram condenados a 17 anos e 6 meses de prisão por promoverem turismo sexual em São Paulo para estrangeiros de alto poder aquisitivo. Os réus estiveram à frente de um curso realizado na capital paulista, em fevereiro de 2023, com o objetivo de ensinar aos clientes técnicas para a sedução de mulheres. O treinamento culminou em uma festa em uma mansão no Morumbi, bairro nobre da cidade, da qual participaram dezenas de mulheres induzidas a comparecer sem saber o verdadeiro intuito do evento. Parte das vítimas era menor de 18 anos. Os réus, um cidadão estadunidense e um brasileiro, ainda podem recorrer da sentença.

A decisão da Justiça Federal acolheu a denúncia do MPF contra a dupla para condená-la por favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual, inclusive de crianças e adolescentes. Os crimes são previstos nos artigos 218-B e 228 do Código Penal. As penas foram definidas com base na identificação de sete vítimas, duas delas menores de idade à época. Um terceiro envolvido, um cidadão chinês, também foi denunciado, mas teve seu processo desmembrado e suspenso após não constituir defesa nem se apresentar à Justiça para responder à ação penal.

Segundo as investigações, o chinês e o norte-americano eram responsáveis por um empreendimento internacional que promovia cursos de relacionamento em locais com histórico de violação de direitos femininos. Antes da edição em São Paulo, o treinamento já havia passado por países como Costa Rica e Colômbia. Em anúncios do curso realizado na capital paulista, os organizadores referiam-se expressamente aos atributos físicos e sexuais das mulheres brasileiras. Cada inscrito desembolsou quantias que variaram de US$ 4 mil a US$ 50 mil para participar do módulo.

Festa – O evento na mansão do Morumbi, em 26 de fevereiro de 2023, marcou o encerramento das atividades após três semanas de curso. A confraternização tinha como pretexto proporcionar aos participantes a oportunidade de colocar em prática os conhecimentos teóricos adquiridos. Ao longo do treinamento, os alunos estabeleceram relacionamentos com mulheres por meio de aplicativos, sem avisá-las do real propósito da aproximação, e ao final deveriam induzi-las a comparecer à festa.

Para ampliar a presença feminina no evento, convites foram veiculados em redes sociais voltados à inscrição de outras mulheres interessadas. Também sem mencionar a verdadeira finalidade da festa, as postagens indicavam que as convidadas estariam isentas de custos com deslocamento, ingresso e consumação de bebidas e alimentos, todos suportados pelos organizadores. No dia da celebração, as mulheres inscritas não passaram por nenhuma checagem de identificação, o que permitiu a entrada de diversas menores de idade.

A festa foi registrada por uma equipe de filmagem, assim como encontros anteriores em casas noturnas e restaurantes para onde os alunos haviam levado as mulheres que conheceram nos aplicativos. Muitas vítimas só souberam que haviam participado como “iscas” e “cobaias” do treinamento quando, posteriormente, viram suas imagens publicadas em vídeos nas páginas do curso em redes sociais.

Testemunhas ouvidas durante a tramitação do processo foram unânimes ao descrever o ambiente da festa, na qual a presença feminina era bem superior à de homens, quase todos estrangeiros. Vítimas também apontaram a circulação de relatos durante o evento sobre atos sexuais praticados em áreas restritas da mansão. De acordo com a sentença da 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo, os testemunhos e as demais informações reunidas convergem para a conclusão de que as mulheres foram submetidas a um “experimento projetado pelos idealizadores” do curso.

“Os alunos do programa não vieram a São Paulo/SP a passeio, pretendendo conhecer os pontos turísticos da cidade, mas sim com o intuito de promover um execrável turismo de natureza sexual em território paulistano e, para isso, selecionaram criteriosamente o perfil das mulheres que se submeteriam às técnicas de conquista ensinadas pelos ‘coaches’, notadamente pessoas jovens e de origem humilde, que, na visão dos participantes, seriam mais suscetíveis às falsas promessas formuladas por eles”, ressaltou a decisão judicial.

As investigações também apontam que o réu brasileiro atuou como “sócio oculto” dos organizadores do curso. Mantendo contato frequente com os demais envolvidos, ele negociou a locação da mansão, indicou profissionais para trabalhar na festa, convidou e recepcionou pessoas e tinha pleno acesso a todas as áreas do imóvel durante o evento. Ele já teve a prisão preventiva decretada e está foragido.

A denúncia que levou à condenação dos réus foi apresentada pelo procurador da República Michel François Drizul Havrenne.

Ação Penal nº 5000162-29.2024.4.03.6181

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