Comunidades Tradicionais
Maio Cigano: MPF debate desafios para reconhecimento da população cigana e inclusão no censo
Encontro promovido em Florianópolis (SC) contou com lançamento de livro e abertura de exposição, que segue até 19 de junho
Foto: Comunicação/MPF.
O Ministério Público Federal (MPF) promoveu, na tarde da última quarta-feira (20), o evento “Maio Cigano”, na sede do órgão em Florianópolis (SC). Foi realizada uma roda de conversa com lideranças tradicionais, acadêmicos e autoridades para discutir os desafios para o reconhecimento da população cigana e sua inclusão no censo.
Coordenado pelo procurador da República Antônio Augusto Teixeira Diniz, o evento também contou com o lançamento de um livro sobre a cultura cigana e a inauguração de uma exposição. A mostra seguirá aberta ao público até o dia 19 de junho, das 13h às 18h, no Memorial do MPF, na capital catarinense.
Durante o debate “Realidade da população cigana em Santa Catarina e os desafios para o censo de 2030”, os convidados foram unânimes ao apontar que a falta de dados oficiais robustos amplia a exclusão social desse grupo. O evento foi um marco na caminhada para a inclusão da população cigana no próximo censo, que é fundamental para efetivação de políticas públicas.
A necessidade de reconhecimento também foi defendida pelo representante da Associação do Centro de Referência Cigana de Santa Catarina, Rogério da Silva, que é da etnia Calon. Para ele, o conhecimento superficial ou baseado apenas em relatos externos perpetua a ignorância sobre suas reais vivências. O líder cigano destacou, ainda, que a identidade de seu povo vai muito além dos aspectos visuais. "Eu sou cigano. Eu falo o dialeto. Eu posso tirar a minha roupa, posso tirar meus trajes e continuo sendo cigano", afirmou.
Ao encerrar sua participação, Rogério cobrou ações concretas das autoridades, enfatizando que o principal desafio enfrentado hoje é a falta de visibilidade e o reconhecimento histórico de sua população. "O que falta em Santa Catarina para nós, povos ciganos, é sermos reconhecidos na história", concluiu.
Reconhecimento e diálogo institucional – A academia também esteve presente, reforçando o papel da pesquisa e da extensão no mapeamento dessas realidades. O membro da cátedra Antonieta de Barros, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), João Carlos Nogueira, relembrou a longa trajetória dos ciganos pela busca por reconhecimento no Brasil. “Historicamente, a população cigana já reivindicava inclusão desde a primeira contagem oficial ocorrida em 1872, durante o Império. Estamos em 2026 e essa população ainda não está no censo”, disse ele.
Outra convidada foi Patrícia Moraes de Lima, professora do Centro de Ciências da Educação (CED) da UFSC e pesquisadora da Cátedra Antonieta de Barros, que apresentou uma pesquisa etnográfica que busca auxiliar no mapeamento dessas comunidades. Falando sobre a falta de dados sobre os povos ciganos, ela destacou o preconceito, que leva muitos a esconderem sua identidade por medo de discriminação.
Além disso, a professora alertou sobre a persistência de estereótipos violentos na mídia e episódios de segregação explícita em espaços públicos, o que gera perseguições e remoções forçadas de comunidades itinerantes para áreas insalubres. “Essa vulnerabilidade territorial reflete-se diretamente no bloqueio do acesso a direitos básicos, como à educação, onde a falta de uma pedagogia que respeite a itinerância gera evasão escolar, e à saúde, onde a exigência de comprovante de residência fixa inviabiliza o atendimento pelo SUS”, concluiu Patrícia Lima.
O subprocurador-geral da República Luciano Mariz Maia, membro da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF, especializada em populações indígenas e comunidades tradicionais, destacou a importância de enfrentar esse apagamento histórico. "Eles são brasileiros como todos nós, com direito à moradia, ao trabalho, à educação, ao emprego, à renda e, acima de tudo, ao direito de não sofrer discriminação", pontuou o subprocurador-geral.
A roda de conversa possibilitou um encontro mais direto entre as instituições públicas e os povos ciganos, buscando auxiliar no mapeamento dessas comunidades e na criação de políticas públicas eficientes de saúde, moradia e educação.
Literatura como ferramenta cultural – O evento também celebrou a ancestralidade cigana por meio da arte, com o lançamento e uma sessão de autógrafos do livro infantojuvenil "Aurora", escrito por Rosecler Winter, cigana da etnia Sinti.
A obra literária foi uma das vencedoras do I Prêmio Nacional de Literatura Infantojuvenil para Ciganos e Quilombolas de 2025, e aborda as tradições, a rotina e os valores da infância sob a ótica da etnia Sinti.
A autora compartilhou o significado por trás de sua obra, destacando que a publicação vai muito além das páginas impressas, carregando a essência e a história de gerações de mulheres de sua família. "Aqui se concentra o conhecimento que minha avó recebeu da avó dela, uma linha de sabedoria que vem do passado e se projeta para o futuro, chegando até mim", explicou Winter.
Maio Cigano – Iniciado em 2018, o projeto "Maio Cigano" consolida-se como um marco anual na luta contra o preconceito e na construção de um diálogo permanente entre o Estado e as comunidades tradicionais.
Serviço
Evento: Exposição "Maio Cigano".
Local: Memorial do MPF em Florianópolis (SC).
Entrada: Aberto à visitação pública.
Data: Até o dia 19 de junho de 2026.
Horário: das 13h às 18h.
Endereço: Rua Paschoal Apóstolo Pitsica, 4876, Edifício Luiz Elias Daux, Agronômica, Florianópolis (SC).
Confira aqui as fotos do evento.
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