Direitos do Cidadão
A melodia que a ditadura não calou: após 50 anos, família do pianista Tenório Jr. recebe pertences
Cerimônia no MPF, no Rio, marca entrega de colares do músico morto na ditadura argentina e simboliza avanço na cooperação internacional por memória, justiça e reparação
Foto: Comunicação/MPF/RJ
Na casa do Cosme Velho, em março de 1976, o tempo parou no instante em que a ausência se instalou. Era aniversário de Elisa Tenório, que completava 8 anos naquele dia. A irmã mais nova, Margarida, tinha apenas 5. O pai, o pianista Francisco Tenório Cerqueira Júnior, estava em Buenos Aires, na Argentina, em turnê. Saiu do hotel para comprar um lanche. Não voltou.
Cinco décadas depois, na tarde da última quarta-feira (25), o tempo voltou a se mover — ainda que com a delicadeza de quem toca uma ferida antiga. No terraço da sede da Procuradoria Regional da República da 2ª Região (PRR2), no centro do Rio de Janeiro, os filhos Elisa, Margarida e Francisco Tenório receberam os colares que o pai carregava no momento em que foi levado pela repressão argentina.
Mais do que objetos, eram fragmentos de uma história interrompida — e de um luto que nunca pôde ser plenamente vivido. “Significam o fim de 50 anos de vácuo, de desaparecimento mesmo”, afirmou Elisa Tenório. “A primeira coisa palpável que a gente vai ter são esses colares.”
Tenório Jr., um dos nomes centrais do samba-jazz brasileiro, foi sequestrado por agentes do regime militar argentino durante uma turnê, às vésperas do golpe de 1976. Seu caso tornou-se emblemático da Operação Condor, a aliança repressiva entre as ditaduras do Cone Sul que coordenou perseguições, sequestros e assassinatos além das fronteiras nacionais.
Durante décadas, a família conviveu com a ausência sem respostas. A espera atravessou gerações, sustentada pela memória e pela insistência de Carmem Tenório, a esposa do músico, que morreu em 2019 sem ver o desfecho da história que perseguiu por toda a vida.
Mas à memória dela falou a neta, a jovem Sofia Tenório:“Esses colares são o que voltou para nossa família”, afirmou. “A pessoa que mais merecia estar recebendo essas respostas não está mais aqui. Ela esperou muito e não viveu isso”, emocionou-se, ao lembrar da falecida avó.
Sofia também destacou que a memória do avô deve servir como alerta permanente. “Olhar para esse passado é fundamental para entender a violência de Estado que ainda existe hoje.”
No apartamento do Cosme Velho, cada batida à porta carregava uma esperança improvável.
“A gente sempre pensava: ‘Será que é ele?’”, relembrou Margarida Tenório.
Cooperação internacional e o direito ao luto – A entrega dos pertences é resultado de um trabalho técnico e institucional que uniu Brasil e Argentina na busca pela verdade.
A identificação de Tenório Jr., realizada em 2025 pela Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), por meio de datiloscopia, permitiu esclarecer as circunstâncias da morte e encerrar décadas de incerteza.
No Brasil, o caso foi acompanhado pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, com atuação do Ministério Público Federal.
O procurador da República Ivan Marx destacou que a identificação de Tenório inaugura um novo ciclo de investigação. “Temos em torno de 20 desaparecidos: 15 na Argentina e cinco no Chile. Esse é um trabalho que vamos prosseguir para todos os outros”, afirmou.
Segundo ele, a cooperação internacional é essencial para garantir que outros casos também sejam esclarecidos. “A importância da verdade e da justiça é dar uma satisfação para as famílias, que têm o direito de ter o seu luto.”
Representando a Argentina, o perito forense Carlos Somigliana enfatizou o sentido humano do trabalho de identificação. “A parte mais bonita desse trabalho é poder notificar uma família sobre uma certeza que lhes foi negada durante tanto tempo”, disse.
Ele também relatou o cuidado ao transportar os pertences até o Brasil. “Sabia que eram uma relíquia para a família, com um valor enorme.”
Um rito de memória, justiça e reparação - A solenidade na última quarta-feira (25) reuniu membros do Ministério Público Federal, autoridades brasileiras e argentinas, representantes da sociedade civil e familiares, em um ato marcado pela emoção e pelo compromisso institucional com a memória e a não repetição da violência.
Na abertura, o procurador-chefe da PRR2, Leonardo Cardoso de Freitas, destacou o caráter simbólico da cerimônia. “Que o assassinato de Tenório seja um alerta para que nossos países nunca mais escolham o caminho do arbítrio”, afirmou.
A procuradora da República Fabiana Schneider ressaltou o significado do silêncio que marcou o caso por décadas. “O silêncio em torno de Tenório nunca foi vazio; foi um silêncio carregado de perguntas e um hiato doloroso.”
O procurador regional dos Direitos do Cidadão Julio Jose Araujo Junior reafirmou o papel do Estado na busca por responsabilização. “É nosso dever buscar não só reparações simbólicas, mas esclarecimentos e responsabilizações”, disse.
A psicóloga Vera Lúcia Vital Brasil destacou o valor simbólico da devolução dos objetos. “O objeto ajuda a reconstruir a presença dessa pessoa na vida das famílias”, afirmou.
Ao final da cerimônia, os três filhos vivos do músico (dois faleceram) seguraram os colares do pai.
Para Francisco Tenório Filho, o reconhecimento da verdade trouxe um tipo raro de alívio. “Foi um alívio saber a verdadeira história”, afirmou.
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