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Comunidades Tradicionais

MPF obtém decisão para garantir o livre trânsito de quilombolas no Vale do Ribeira, em São Paulo e no Paraná

Justiça Federal determina que agropecuaristas não impeçam a circulação da comunidade Estreitinho na localidade

Data: 15/04/2026 • 14:44 Unidade: Procuradoria da República no Paraná
Vista traseira de uma mulher caminhando por uma trilha de terra em um ambiente arborizado. Ela veste uma saia floral com barra roxa, uma blusa cinza, um turbante branco e carrega um pano branco sobre o ombro. Ao fundo, outras figuras vestidas de branco caminham sob a sombra das árvores. À esquerda, um quadro com uma ilustração está apoiado no chão, próximo à vegetação.

Foto ilustrativa: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Ministério Público Federal (MPF), por meio da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC), obteve decisão liminar da Justiça Federal que possibilita o livre trânsito de integrantes da Comunidade Remanescente de Quilombo Estreitinho, localizada entre Adrianópolis (PR) e Barra do Turvo (SP), fixando multa caso haja algum tipo de empecilho por parte de posseiros locais.

A decisão atende ao pedido do MPF apresentado em ação civil pública contra agropecuaristas responsáveis pelas restrições. Constam também na ação o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), os municípios de Adrianópolis e Barra do Turvo e a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp). A ação trata de restrições de circulação, ameaças e episódios de violência que vêm atingindo a comunidade quilombola.

Segundo o MPF, por décadas a comunidade utilizou de forma contínua e pacífica o trajeto que inclui a travessia do Rio Pardo para acessar serviços públicos, comércio e infraestrutura no município de Barra do Turvo. A situação se agravou após a aquisição da propriedade rural na margem paulista do rio, entre 2018 e 2019, pelos atuais fazendeiros, que passaram a adotar práticas que dificultam ou impedem a passagem dos moradores.

Embora situada no Paraná, a comunidade depende do acesso pelo território paulista. O trajeto inclui estrada rural e travessia do Rio Pardo, realizada por meio improvisado, com uso de embarcação de pequeno porte movimentada manualmente.

Restrições e violência – Na ação apresentada à Justiça, o MPF explicou que os moradores têm enfrentado, nos últimos anos, intimidações, constrangimentos e barreiras físicas para circular por áreas tradicionalmente utilizadas como caminho de acesso. Em alguns casos, o trânsito foi completamente impedido; em outros, ocorre sob vigilância, ameaças e presença de animais, gerando medo e insegurança.

O MPF relata ainda episódios recentes de violência. Entre eles, a destruição de uma estrutura agrícola utilizada pela comunidade, por determinação do proprietário da área, e invasões frequentes de búfalos e gado em roças e quintais. Os animais atravessam o rio em períodos de estiagem e causam prejuízos a plantações, cercas e benfeitorias, afetando diretamente a subsistência das famílias. Tais destruições comprometem a segurança alimentar e agravam a vulnerabilidade econômica dos moradores.

Atualmente, os moradores dependem de uma travessia precária do Rio Pardo, realizada em embarcação improvisada e sem condições adequadas de segurança. A situação afeta especialmente os idosos, que representam grande parte da comunidade, e limita o acesso a serviços públicos essenciais, como saúde, educação e assistência social. A ausência de estruturas seguras impede o deslocamento regular, dificulta o escoamento da produção e configura violação ao direito de locomoção, à dignidade humana e à permanência da comunidade em seu território tradicional.

O MPF aponta que quatro das nove passagens necessárias estão em situação emergencial, deixando moradores sem acesso regular a equipamentos públicos. As prefeituras envolvidas informaram que aguardam a liberação das áreas para viabilizar a construção das estruturas.

Na ação civil pública, o MPF pede, entre outras medidas, a proibição de qualquer ato que impeça o trânsito da comunidade, a autorização para construção das passagens e a responsabilização dos réus por danos morais e materiais. A ação segue em tramitação na Justiça Federal.

Comunidade tradicional – A Comunidade Remanescente de Quilombo Estreitinho está localizada em Adrianópolis, no Paraná, na região do Vale do Ribeira, e foi reconhecida pelo Estado brasileiro e certificada pela Fundação Cultural Palmares. Formada por descendentes de pessoas negras escravizadas e libertas, a comunidade mantém modos de vida tradicionais há mais de um século.

Atualmente, 22 famílias integram a associação local e desenvolvem atividades como agricultura familiar, sistemas agroflorestais e criação de animais em pequena escala. A produção é voltada ao autoconsumo e à comercialização local, mas enfrenta limitações devido à precariedade de acesso e à ausência de infraestrutura adequada.

Ação Civil Pública nº 5016612-17.2026.4.04.7000

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