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Comunidades Tradicionais

Servidora do MPF se torna a primeira quilombola na Paraíba a obter título de doutora

Pesquisa sobre o quilombo do Talhado é aprovada com louvor, indicada ao Prêmio Capes e destaca a importância da equidade no acesso à universidade

Data: 19/03/2026 • 15:26 Unidade: Procuradoria da República na Paraíba
A imagem mostra uma mulher negra em pé, diante de uma tela projetada em um ambiente de sala de aula ou conferência. Ela está gesticulando com as mãos, em postura ativa de explicação, indicando que conduz uma apresentação.

Foto: Bruno Pereira

Com a tese “Quando nos tornamos quilombola: uma etnografia dos Negros do Talhado”, a assistente social Maria Janaína Silva dos Santos tornou-se a primeira quilombola paraibana a obter o título de doutora. Servidora requisitada do Ministério Público Federal (MPF), ela defendeu a tese em 6 de março de 2026 na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O trabalho investiga o processo de formação da identidade quilombola a partir da experiência vivida no quilombo do Talhado, no sertão da Paraíba.

Reconhecida pela originalidade metodológica e pela profundidade analítica, a tese foi aprovada com louvor e recomendada pela banca examinadora para inscrição no Prêmio Capes de Tese (premiação considerada o Oscar da ciência brasileira), além de ser indicada para publicação em livro e utilização como referência em concursos públicos.

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Do barro à universidade - Natural da comunidade quilombola Negros do Talhado, no município de Santa Luzia (PB), Maria Janaína construiu uma trajetória marcada pela superação de barreiras históricas e pela afirmação de identidade. Neta e bisneta das tradicionais louceiras, mulheres que transformam o barro em panelas e sustentam, com seu trabalho, a memória e a economia do quilombo, Janaína cresceu em um território historicamente estudado por pesquisadores, mas raramente representado por seus próprios sujeitos. Ao ingressar na universidade e avançar até o doutorado, tornou-se protagonista de uma mudança simbólica: da condição de objeto de estudo à de produtora de conhecimento.

Esse percurso ganhou contornos ainda mais significativos durante a defesa da tese ao longo de mais de cinco horas. Em um dos momentos mais marcantes, a história familiar atravessou o ambiente acadêmico: ainda criança, Janaína foi apontada pela avó como aquela que “não seria louceira, mas iria estudar”. Anos depois, a cena se completou com a presença dos avós assistindo à defesa, agora confirmando, diante da banca examinadora, o que antes era apenas expectativa.

Momento em que a doutoranda recebe a aprovação da tese. Foto de Bruno Pereira.jpgConquista coletiva - Mãe solo, a pós-graduanda ouviu a aprovação da tese com o filho no colo e os avós sentados na primeira fila. “Esse título redefine a trajetória do meu filho, porque ele crescerá sabendo que a mãe não é apenas uma doutora, mas uma doutora quilombola, e isso muda a perspectiva de horizonte dessa criança negra”, afirmou.

Ela destacou o caráter coletivo da conquista: “Minha trajetória é resultado de muitas construções que me trouxeram até aqui e rompe um silêncio histórico. Cada página da minha tese carrega a luta de alguém e um pedaço de terra que eu honro. O doutorado deixa de ser apenas meu e passa a ser uma ferramenta de luta para os territórios, mostrando que a educação é essencial para transformar realidades”.

Acesso e equidade no ensino superior - A trajetória da pesquisadora quilombola se insere no contexto de políticas públicas voltadas à ampliação do acesso de grupos historicamente excluídos ao ensino superior. Sua formação acadêmica ocorre em um cenário de expansão da presença de estudantes oriundos de comunidades tradicionais nas universidades, especialmente por meio de ações afirmativas. Ao desenvolver pesquisa a partir da experiência vivida no território quilombola, o trabalho apresenta uma abordagem que considera saberes historicamente pouco representados na produção acadêmica e amplia o debate sobre formas de construção do conhecimento nas Ciências Sociais.

Ciência que nasce do território – Segundo explica Maria Janaína, a tese investiga o processo de construção da identidade quilombola a partir de uma abordagem autoetnográfica, baseada no conceito de “escrevivência”, de Conceição Evaristo. O trabalho articula autores que são referências do pensamento social brasileiro e negro, como Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Neusa Santos Souza e Frantz Fanon, para analisar dimensões históricas, sociais e subjetivas da formação da consciência coletiva no quilombo.

Ela ressalta que a pesquisa também propõe uma mudança importante na forma de fazer estudos nas Ciências Sociais: em vez de tratar a comunidade como objeto externo de observação, constrói uma narrativa a partir da experiência interna, valorizando memória oral, pertencimento territorial e ancestralidade.

Ainda conforme a pós-graduanda, ao mapear a cartografia social e afetiva do Talhado, o estudo aborda o protagonismo de jovens quilombolas, os impactos do racismo estrutural e as formas de organização sociopolítica do grupo, além de destacar práticas culturais, como o trabalho das louceiras, a música e as festas comunitárias, como elementos centrais de resistência e preservação identitária.

Maria Janaina no evento Aquilombando-se. Foto Comunicação MPF.jpgAtuação institucional e territórios - No âmbito do MPF, a temática abordada pela pesquisadora é acompanhada pela 6ª Câmara de Coordenação e Revisão (6CCR), responsável por coordenar e integrar a atuação institucional voltada à proteção de povos indígenas e comunidades tradicionais, incluindo quilombolas. A atuação da Câmara está orientada pela defesa da pluralidade étnica e cultural do Estado brasileiro, conforme previsto na Constituição.

Para o procurador da República José Godoy, representante da 6ª Câmara na Paraíba, a conquista não é apenas um marco individual, mas a afirmação de que o conhecimento produzido a partir das próprias comunidades é essencial para o fortalecimento das políticas públicas e para a proteção dos direitos das populações quilombolas. “Janaína saiu do quilombo, levou o quilombo com ela e voltou para defendê-lo. A sua trajetória sintetiza, com muita força, o que buscamos na atuação do MPF, que é qualificar a escuta, a compreensão dos conflitos e a formulação de estratégias de promoção de direitos”, disse.

A defesa foi realizada no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, vinculado ao Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA). O momento marcou a primeira defesa de doutorado de uma pesquisadora quilombola no programa.