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Direitos do Cidadão

MPF discute representatividade e reparação histórica da população negra

Podcast abordou força das religiões de matriz africana, racismo estrutural e necessidade de políticas públicas de igualdade racial

Data: 01/12/2025 • 21:47 Unidade: Procuradoria da República em Mato Grosso
Foto mostra mesa de debate do podcast com cinco pessoas sentadas ao redor olhando para um telão enquanto outra participante fala

Em alusão ao mês da Consciência Negra, a Comissão de Gênero e Raça do Ministério Público Federal (MPF) realizou, no dia 28 de novembro, o podcast “Fé e resistência: a força das religiões afro-brasileiras”, no auditório da Procuradoria da República em Mato Grosso (PR/MT). O evento reuniu autoridades tradicionais de matriz africana, representantes do movimento negro e de políticas públicas para um debate profundo sobre a história da escravidão, o racismo religioso e estrutural e a urgente necessidade de reparação e representatividade da população negra em diversos espaços sociopolíticos.

O podcast focou no tema das religiões de matriz africana. O debate abordou o preconceito sistemático enfrentado por essas comunidades, um problema que gera a perda de identidade de seus membros. Foi discutida a manifestação desse preconceito em diversos espaços, como escolas, ambientes de trabalho e instituições públicas. A iniciativa buscou dar visibilidade à necessidade de combate à intolerância religiosa.

A mesa de debate contou com a presença da Mãe Rosana Pereoira de Brito (Ilyá Rosana de Omolu), autoridade tradicional da matriz africana e Iyalorixá no Ilé Asé Idasilé Opô Oluayê; e da presidenta do Centro de Tradições Afro-Brasileiras (Cetrab), psicóloga, especialista em educação e liderança do movimento negro e de mulheres do axé, Maria Dolores de Lima e Silva (Ilya Oyaiyele).

Também participaram da mesa de debate o sacerdote de Umbanda e Candomblé, advogado e um dos mais antigos líderes de matriz africana em Mato Grosso, Edézio Lima Fernandes (Tatá Makulembê); o sacerdote de Umbanda e Candomblé, dirigente da aldeia tupinambá - Inzo Nzambi Mukongo e presidente da Federação Nacional dos Cultos Afro-Brasileiros (Fenucab-MT), Marcos Ribeiro (Tatá Euadele) e o secretário de Cultura, Jan Moura.

Durante o encontro, foram levantados temas cruciais, como o racismo estrutural e religioso, citando exemplos concretos de preconceito no sistema de ensino, que afeta crianças e, de forma agravada, a mulher negra. Os palestrantes trouxeram à tona o sofrimento dos povos de matriz africana e originários, cuja história e vivências demandam maior visibilidade e escuta por parte da sociedade e das instituições. A necessidade de reconstrução de políticas de igualdade racial foi enfatizada, clamando pelo apoio da Justiça para garantir o acesso a direitos e a reparação histórica.

História – O debate também revisitou o passado escravista do Brasil, discutindo as leis pré-abolicionistas, como a Lei dos Sexagenários (1885), que, na prática, beneficiava pouco os escravizados, muitos dos quais não atingiam tal idade devido às condições desumanas de trabalho. Mencionou-se ainda o papel de instituições como o Banco do Brasil na dimensão da escravidão no momento da abolição.

Houve destaque para a política de imigração do Brasil Imperial que, buscando o “branqueamento” do país, ofereceu cotas de terra e apoio financeiro para a vinda de imigrantes europeus, em detrimento dos ex-escravizados, que foram abandonados à própria sorte após a Lei Áurea (1888). A persistência da concentração de poder e de terras (latifúndios) e o impacto nos direitos dos povos originários também foram pautados como heranças diretas do período escravista e colonial.


Para aprofundar o debate sobre reparação histórica, os participantes trouxeram à discussão conceitos como repatriação, acesso jurídico para a população negra e o reconhecimento do crime de lesa-humanidade no contexto da escravidão, defendendo a urgência de medidas concretas de reparação. Ao final do debate, o MPF recebeu o convite para uma visita vivencial a um terreiro em 2026, fortalecendo a relação institucional e o conhecimento sobre a cultura e a fé afro-brasileira.

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