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Fiscalização de Atos Administrativos

MPF ajuíza ação para reduzir fila de mais de 15 mil pacientes de cardiologia em Uberlândia (MG)

Órgão pede prazos por nível de risco, custeio de cirurgias complexas e indenização de R$ 50 milhões por danos à sociedade

Data: 17/06/2026 • 16:15 Unidade: Procuradoria da República em Minas Gerais
foto mostra um resultado de eletrocardiograma e um estetoscópio por cima

Foto ilustrativa: Canva

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública, com pedido de liminar, para combater uma falha sistêmica no atendimento de cardiologia em Uberlândia (MG) e em municípios vizinhos. A iniciativa busca garantir que mais de 15 mil pessoas que aguardam por consultas especializadas consigam diagnóstico e tratamento em tempo adequado, evitando o agravamento de doenças e o risco de morte. O MPF responsabiliza a União, o estado de Minas Gerais, o município de Uberlândia e a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) pela situação da rede de saúde.

A investigação que deu origem ao processo começou focada em dificuldades para a realização do Implante Transcateter de Válvula Aórtica (Tavi), um procedimento moderno e menos invasivo para substituir a válvula do coração sem a necessidade de abrir o peito do paciente. No entanto, ao longo da apuração, o MPF identificou que o problema é mais amplo e atinge toda a linha de cuidado do coração na região. O bloqueio ocorre logo no início, com a falta de consultas para o diagnóstico, o que impede que os pacientes recebam tratamentos planejados e preventivos.

Efeito em cadeia – Essa demora na fase inicial de atendimento gera um efeito em cadeia, pois sem conseguir a consulta especializada, os pacientes permanecem desamparados até que seus quadros de saúde se tornem críticos. Quando finalmente chegam aos hospitais de alta complexidade, como o Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU), o estado de saúde é tão grave que a única solução é a cirurgia de urgência. No HC-UFU, entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026, registraram-se 184 cirurgias cardíacas de emergência contra apenas 76 operações programadas.

Essa situação obriga o uso constante do mecanismo conhecido como vaga zero. De acordo com as normas de saúde, a vaga zero é um recurso essencial para garantir acesso imediato aos pacientes com risco de morte ou sofrimento intenso, devendo ser considerada como uma situação de exceção e não uma prática cotidiana. O MPF aponta que esse recurso tornou-se rotina em Uberlândia devido à incapacidade da rede municipal em organizar as consultas iniciais e os exames necessários.

Pedidos – Para resolver o problema, o MPF solicita que a Justiça estabeleça prazos máximos para o atendimento conforme a gravidade de cada caso. O pedido determina que o município de Uberlândia cumpra o prazo máximo de 10 dias para consultas de pacientes classificados na categoria vermelha, que representa os casos de maior prioridade e risco iminente. Para aqueles na categoria amarela, indicativa de risco intermediário, o prazo solicitado é de até 20 dias. Para as demais classificações, os prazos variam entre 30 e 40 dias.

Caso esses prazos não sejam cumpridos, o MPF requer que a Justiça autorize a imediata internação e o tratamento dos pacientes em hospitais particulares, com todos os custos pagos pelos órgãos públicos envolvidos. Essa cobertura deve incluir não apenas o tratamento e os medicamentos, mas também despesas com transporte, hospedagem e alimentação para o paciente e um acompanhante, caso seja necessário buscar atendimento em outra cidade. Se os hospitais privados se recusarem a receber os pacientes, o MPF solicita o bloqueio direto de valores nas contas bancárias da União, do estado, do município ou da Ebserh para garantir o pagamento do serviço.

Além disso, a ação exige que o município de Uberlândia e o estado de Minas Gerais apresentem, em até 30 dias, um plano de metas emergencial para zerar a fila de espera. Esse plano deve detalhar como o governo pretende atender as mais de 15 mil pessoas aguardando consultas, sugerindo medidas como a realização de mutirões de exames, a contratação de serviços na rede privada e o uso de teleconsultas especializadas. O objetivo é criar um cronograma claro e metas objetivas para que o sistema de saúde volte a funcionar de forma organizada

O procurador da República Cléber Eustáquio Neves, autor da ação, destaca que a falta de diagnóstico precoce retira do cidadão a chance de um tratamento seguro. Segundo ele, “é sabido que o infarto é a doença que mais mata no mundo, e que o diagnóstico precoce é a única ferramenta capaz de reduzir essa triste realidade”. Para o procurador, manter milhares de pessoas em fila por anos configura um descaso com a dignidade humana.

Além das medidas para organizar o atendimento, a ação requer que o governo federal, o estado e a Ebserh garantam o financiamento total e os materiais para as cirurgias de Tavi no HC-UFU. O MPF pede ainda que os envolvidos sejam condenados a pagar R$ 50 milhões por danos morais coletivos, valor que reflete o sofrimento causado à população e a violação do direito constitucional à saúde. O município e o estado também devem apresentar, em 30 dias, um plano de metas concreto para zerar a fila de espera.

Ação Civil Pública nº 6010254-50.2026.4.06.3803


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