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Direitos do Cidadão

Mais de mil trabalhadores da construção civil participam de ação educativa contra violência de gênero em João Pessoa (PB)

Iniciativa é uma continuidade da campanha Agosto Lilás e tem como estratégia levar informações a um público majoritariamente masculino

Data: 24/09/2025 • 21:30 Unidade: Procuradoria da República na Paraíba
foto mostra os trabalhadores ouvindo uma palestra a palestra

Na manhã desta quarta-feira (24), cerca de mil trabalhadores da construção civil participaram de uma ação educativa em um canteiro de obras na praia de Jacarapé, em João Pessoa (PB). O evento teve como objetivo conscientizar os operários sobre a importância do combate à violência contra a mulher e fortalecer a cultura do respeito e da igualdade de gênero. A iniciativa é uma continuidade da campanha Agosto Lilás e tem como estratégia levar informações a um público majoritariamente masculino.

O evento reuniu representantes do Ministério Público Federal (MPF), do Ministério Público da Paraíba (MPPB), do Ministério Público do Trabalho (MPT), do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), da Polícia Civil. A iniciativa ainda contou com o apoio do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil  (Sintricom) e do Sinduscon, além da participação de representantes sindicais, engenheiros e trabalhadores da obra.

A ação – Durante a ação educativa, os representantes das instituições do sistema de segurança e Justiça informaram aos trabalhadores sobre os diferentes tipos de violência doméstica e familiar, quem pode ser vítima e autor de violência doméstica e explicaram como funciona o atendimento às vítimas nas delegacias especializadas.

Para a procuradora regional dos Direitos do Cidadão do MPF na Paraíba, Janaína Andrade, a prevenção com foco na educação é essencial no combate à violência de gênero. “Há a necessidade de mudar a cultura machista e patriarcal por meio de educação e conscientização, incluindo a comunicação em espaços tradicionalmente masculinos”, reforçou.

Ela ressaltou que, em 2025, já foram registrados 23 feminicídios na Paraíba. “Neste cenário de dados alarmantes, o engajamento dos homens, inclusive como multiplicadores de boas ações, é essencial”, concluiu. Por fim, a procuradora relembrou que, para a concessão de medidas protetivas, não é necessária a abertura de procedimento policial.Foto dos representantes dos órgãos de justiça e segurança em pé lado a lado

Prevenção e o caráter social – Durante a ação, os palestrantes destacaram também a importância da prevenção da violência de gênero e do impacto social de levar essa mensagem a um público predominantemente masculino. Para a delegada Paula Monalisa Pinho Cabral, subcoordenadora das Delegacias da Mulher da Primeira Região, “é de grande importância um movimento como esse. É uma conscientização, uma visão que a gente traz para um público essencialmente masculino, mostrando a Lei Maria da Penha, todas as suas repercussões e todos os tipos de violência”, observou. Segundo ela, muitas vezes a pessoa acha que é só a violência física quando não é. “Então, a gente tenta nesse pequeno espaço mostrar as violências e fazer com que eles sejam multiplicadores desse conhecimento”, pontuou.

O procurador-chefe do MPT, Rogério Wanderley Sitônio, ressaltou o caráter preventivo da iniciativa. “Essas ações são extremamente importantes porque têm o caráter preventivo de levar a educação a esse pessoal, no sentido de combater a violência doméstica, não só no ambiente de trabalho, mas principalmente no ambiente familiar”, frisou. Para ele, só a repressão não é 100% eficaz, é preciso prevenir e evitar a ocorrência de novas agressões e feminicídios de forma efetiva na cidade e no estado.

Por sua vez, a promotora de Justiça e coordenadora do Centro de Apoio Operacional (CAO) da Cidadania e dos Direitos Fundamentais, Anne Emanuelle Malheiros, destacou que a iniciativa reforça o papel dos trabalhadores como agentes multiplicadores de uma cultura de paz. “Esse evento é uma capacitação para o pessoal da construção civil, para demonstrar a necessidade de reprimir a violência doméstica e eles se tornarem agentes multiplicadores”, afirmou.

Já a promotora de Justiça e coordenadora do CAO de Defesa das Mulheres, Dulcerita Alves fez uma palestra interativa com o público e destacou que levar informação aos canteiros é fundamental. “Em um ambiente predominantemente masculino, os trabalhadores precisam saber que atitudes que pareciam normais podem, na verdade, ser formas de violência doméstica. Falar para eles é conscientizar, e a educação é a melhor forma de prevenção”, concluiu.

Em sua fala, a juíza Graziela Queiroga reforçou o impacto social da iniciativa. “Estamos tendo essa experiência, passando de obra em obra, hoje especificamente aqui com mais de mil trabalhadores, deixando a mensagem do respeito. A informação é prevenção, informar é prevenir e mudar mentalidades. Esse é o caminho para reduzir a violência contra a mulher”, explicou.

Já o presidente do sindicato dos trabalhadores, Francisco Demontier, lembrou que a categoria, composta majoritariamente por homens, precisa estar atenta ao tema. “O evento caiu como uma luva para nós, trabalhadores. Falar sobre a Lei Maria da Penha, sobre assédio e violência doméstica é essencial para evitar que colegas mal-informados se tornem agressores”, alertou.

Na mesma linha, a secretária-geral do Sintricom, Jéssica de Andrade, ressaltou o impacto social da ação. “Nossa categoria é 95% masculina e representa uma grande parcela da sociedade. Quando instituições vêm até aqui conversar diretamente com os trabalhadores, o impacto é enorme. Eles passam a ser vistos como apoiadores dessa causa, não como inimigos”, defendeu.

Por fim, o engenheiro civil e do trabalho do Sinduscon Daniel Cordeiro reforçou a relevância de manter as campanhas. “Trazer o Ministério Público e a Polícia Civil dá mais força. É importante que essas ações não deixem de acontecer, porque têm muito impacto no canteiro de obras”, completou.

Impacto social – Com a adesão de cerca de mil trabalhadores e a união de diferentes instituições, a ação demonstrou que a prevenção e a informação são caminhos eficazes para transformar mentalidades e consolidar uma cultura de paz em toda a Paraíba.

Após a exposição dos investigadores, os trabalhadores presentes destacaram a importância das informações recebidas. Daniel Silva Mariano avaliou que a palestra serviu para “tocar os trabalhadores e melhorar a convivência em casa”. Já Jaborandi José de Araújo declarou que a ação serviu para aprender a lidar com as situações diárias dentro de casa e do trabalho. “Estou casado há 41 anos e só fortaleceu aquilo que já defendo há muito tempo: a importância do respeito mútuo”, finalizou.



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