Combate à Corrupção
Corrupção enfraquece valores democráticos e ameaça direitos fundamentais, afirma PFDC em seminário
Em evento promovido pela Escola Superior do Ministério Público da União (ESMPU), Nicolao Dino participou de painel sobre impactos da corrupção na democracia
“O maior efeito da corrupção sobre a democracia é a erosão dos valores democráticos, que constituem o fundamento para a realização dos direitos fundamentais.” A afirmação foi feita pelo procurador federal dos Direitos do Cidadão, Nicolao Dino, durante participação no seminário “Democracia, direitos humanos e leniência: o direito de viver sem corrupção”, promovido pela Escola Superior do Ministério Público da União (ESMPU) no último dia 5, em Brasília.
Dino destacou a importância de compreender a democracia não apenas como instrumento para a realização de outros direitos, mas como um direito humano em si. Segundo ele, a concepção encontra respaldo em debates da teoria democrática e em instrumentos internacionais de proteção de direitos humanos. “A democracia é um meio importante para o desenvolvimento social e cultural, mas vai além disso: ela é um direito humano em si mesma e, como tal, merece proteção reforçada pelos sistemas institucionais”, afirmou.
Após essa definição, o procurador federal dos Direitos do Cidadão abordou os efeitos da corrupção sobre a democracia. De acordo com ele, a corrupção deve ser entendida como um fenômeno social, político e econômico que ultrapassa a dimensão de desvios individuais e atinge o sistema como um todo. Nesse sentido, destacou que a prática compromete o funcionamento das instituições e redireciona decisões públicas para interesses particulares. “A democracia se baseia na premissa de que o poder deve ser exercido para realizar o interesse público. A corrupção, ao contrário, transforma o bem comum em algo negociável”, explicou.
Nicolao Dino ressaltou que documentos internacionais, como a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, apontam riscos significativos do crime para a estabilidade política e para o Estado de Direito. Entre os impactos apontados, estão o enfraquecimento das instituições democráticas, a ameaça à segurança das sociedades e o comprometimento de recursos públicos.
Consequências - Ao tratar das consequências da corrupção, o procurador destacou duas dimensões principais. A primeira é o chamado déficit estrutural, caracterizado pela redução da capacidade do Estado de promover desenvolvimento sustentável e justiça social. Segundo ele, práticas corruptas retiram recursos de áreas sensíveis, como saúde e educação, agravando desigualdades e prejudicando a prestação de serviços públicos.
A segunda dimensão apontada pelo procurador é o enfraquecimento da confiança nas instituições. Segundo Nicolao Dino, quando a população percebe que regras democráticas são contornadas por práticas como suborno, clientelismo e tráfico de influência, aumenta a desconfiança na política e nas instituições públicas. Esse cenário pode levar ao afastamento dos cidadãos da vida pública “Em situações extremas, esse processo pode abrir espaço para soluções autoritárias ou populistas, que prometem substituir o sistema democrático”, alertou.
Enfrentamento - Ao final da exposição, o procurador destacou que o enfrentamento da corrupção exige mais do que medidas jurídicas e institucionais. Para ele, é necessário fortalecer valores éticos e promover maior participação da sociedade civil na vida pública. “A luta contra a corrupção precisa envolver uma reflexão ética e o fortalecimento das instituições, com a convicção de que a institucionalidade é o caminho para a realização do bem comum e dos valores democráticos”, concluiu Dino.
Avanços e desafios - A subprocuradora-geral da República Silvana Batini Cesar Góes, que também participou do painel, destacou a evolução histórica do combate à corrupção no Brasil nas últimas décadas, especialmente a partir da Constituição de 1988. Segundo ela, o país vivenciou avanços institucionais importantes, com a criação de instrumentos como a colaboração premiada, a cooperação internacional e os acordos de leniência, além do fortalecimento das instituições de controle.
Silvana Batini ressaltou, no entanto, que esse processo também foi marcado por retrocessos e desafios institucionais. Para a subprocuradora-geral, o papel do Ministério Público nesse contexto é, muitas vezes, o de evidenciar problemas estruturais e provocar o debate público. “Nem sempre somos capazes de resolver os problemas, mas temos o dever de expô-los, trazer à luz situações que precisam ser enfrentadas pela sociedade”, afirmou.
Ao abordar o processo eleitoral, ela destacou dificuldades para enfrentar práticas de corrupção e criminalidade organizada nas disputas políticas, especialmente diante de limitações normativas e institucionais. Também defendeu maior responsabilidade dos partidos políticos na seleção de candidatos e no fortalecimento dos mecanismos de integridade no sistema político.
Sobre o evento - O seminário “Democracia, direitos humanos e leniência: o direito de viver sem corrupção” foi realizado nos dias 4 e 5 de março e marcou a abertura do ano letivo da ESMPU. O evento teve como objetivo debater os desafios contemporâneos do sistema anticorrupção brasileiro e sua relação com a democracia e a proteção de direitos fundamentais. A íntegra das discussões pode ser conferida no Canal da ESMPU no Youtube.