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Meio Ambiente

COP30: MPF avança na preservação de trecho da Mata Atlântica encravado na capital paulista

Acordo prevê parque público em área que seria destinada à construção de empreendimentos residenciais de luxo na zona sul da cidade

Data: 29/09/2025 • 18:20 Unidade: Procuradoria-Geral da República
Bioma Mata Atlântica

São Paulo ganha centenas de novos edifícios todos os anos. Se o mercado imobiliário parece não conhecer limites na maior metrópole da América Latina, a cidade emite sinais cada vez mais alarmantes do passivo ambiental decorrente dessa expansão desenfreada de construções. A formação de ilhas de calor e a recorrência de tempestades são apenas parte do preço crescente que os paulistanos vêm pagando pelo avanço da ocupação urbana. Frear essa dívida requer a garantia de áreas verdes, e é esse objetivo que o Ministério Público Federal (MPF) tem alcançado na luta pela proteção de um importante reduto da Mata Atlântica na zona sul da cinzenta capital.

O local, no entorno do parque Burle Marx, foi objeto de uma disputa judicial encampada pelo MPF em duas ações civis públicas, ajuizadas em 2014 e 2017. Os pedidos visavam à preservação de uma área superior a 150 mil m² de mata nativa onde o Fundo Imobiliário Panamby, o Banco Brascan e as empreiteiras Cyrela e Camargo Corrêa, proprietários das glebas, pretendiam construir torres residenciais de alto padrão.

“O desafio do enfrentamento das mudanças climáticas exige que as cidades privilegiem cada vez mais a proteção de áreas verdes e a adoção de soluções sustentáveis para a ocupação do solo. Nesse contexto, seria inconcebível a capital paulista abrir mão de uma área nativa dessa importância para dar lugar a mais prédios”, procuradora da República Suzana Fairbanks Lima de Oliveira

Após obter decisões provisórias que proibiram intervenções nos terrenos, o Ministério Público Federal começou a entabular uma solução definitiva em 2023, quando teve início o estabelecimento de um acordo para manter a vegetação intacta. Naquele ano, as duas ações passaram a tramitar em conjunto na Central de Conciliação da Justiça Federal de São Paulo. As negociações entre as partes avançaram rapidamente, e os empreendedores aceitaram ceder a área ao município com o intuito de transformá-la em uma extensão do Burle Marx.

O compromisso foi concretizado a partir da revisão do Plano Diretor Estratégico da cidade, que formalizou a previsão de ampliação do parque por meio da Lei Municipal nº 17.975/2023. Agora, cabe à prefeitura concluir as tratativas com os proprietários dos terrenos para, em troca da cessão, conceder a eles o direito de construir em outros terrenos da capital onde não haja riscos ambientais.

Importância ecológica da área

Fotos do parque Burle Maxs, em São PauloParque Burle Marx, na capital paulista. Fotos: Prefeitura de São Paulo.

“A garantia de preservação desse trecho de Mata Atlântica, em uma região tão densamente povoada e sujeita à constante pressão do mercado imobiliário, é imprescindível”, ressaltou a procuradora da República Suzana Fairbanks Lima de Oliveira, que vem atuando pelo desfecho bem-sucedido das ações do MPF. Ela lembra que a área protegida pelo acordo forma um corredor ecológico dentro da cidade de São Paulo, sendo uma importante zona de pouso de aves migratórias.

O espaço abriga grande diversidade de fauna e flora e é considerado transicional, com espécies típicas tanto do interior paulista quanto da Serra do Mar. Centenas de animais e insetos já foram identificados ali, entre eles mais de 400 espécies de borboletas. Há estimativa de que o trecho reúna cerca de 30% de todas as aves da capital. Laudos periciais apontam a existência de diversas espécies raras, entre elas um molusco possivelmente exclusivo dessa região, o Adelopoma paulistanum, motivo de uma das decisões liminares que proibiram intervenções no local.

Além disso, a área concentra árvores nativas já desaparecidas da malha urbana e plantas ameaçadas de extinção, como o xaxim, o palmito juçara e a caneleira. “O desafio do enfrentamento das mudanças climáticas exige que as cidades privilegiem cada vez mais a proteção de áreas verdes e a adoção de soluções sustentáveis para a ocupação do solo. Nesse contexto, seria inconcebível a capital paulista abrir mão de uma área nativa dessa importância para dar lugar a mais prédios”, conclui a procuradora.

Os processos tramitam na Justiça Federal sob os números 0022979-76.2014.4.03.6100 e 0003683-63.2017.4.03.6100. Para acompanhar o andamento processual das ações, clique aqui.

Você sabia?

Presentes em diversas partes do mundo, as chamadas ilhas de calor são áreas urbanas que apresentam temperaturas mais elevadas do que as regiões rurais ou menos desenvolvidas. Esse fenômeno acontece por uma série de fatores, mas principalmente por conta das construções, pavimentações e edificações de infraestruturas que absorvem e emitem mais calor do que as superfícies naturais, como florestas e corpos d’água. A emissão de gases de efeito estufa e a poluição do ar estão ligadas diretamente ao aumento da temperatura da Terra, favorecendo o surgimento desse fenômeno em vários pontos do mundo.

Segundo dados da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a diferença de temperatura entre as áreas com mais concreto e asfalto para os bairros com mais vegetação pode chegar a 10ºC. Os impactos dessas ilhas vão desde a degradação do meio ambiente e mudanças em fatores socioeconômicos, até a saúde populacional. 

Temperaturas elevadas geram maior consumo de energia, aumentam o risco de doenças e mortalidade, afetando de maneira desproporcional as populações mais vulneráveis. Algumas medidas como o investimento em planejamento urbano sustentável e a proteção da vegetação já existente nos centros urbanos podem ajudar a mitigar os efeitos e tornar as cidades mais habitáveis.

Contagem regressiva - Até o dia 9 de novembro, véspera do início da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém, no Pará, serão publicadas 50 matérias sobre a atuação do Ministério Público Federal na proteção do meio ambiente, das populações mais vulneráveis e dos direitos humanos. A ação de comunicação faz parte da campanha MPF: Guardião do Futuro, Protetor de Direitos.

Acompanhe a contagem regressiva diariamente, no nosso site!


*Reportagem: Comunicação/MPF/SP