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Meio Ambiente

MPF apresenta atuação no combate à mineração ilegal de ouro e estanho em evento da ONU e da OCDE

Em Bruxelas, instituição compartilhou a experiência brasileira e dois casos recentes com autoridades de vários países

Data: 16/10/2026 • 15:35 Unidade: Procuradoria da República no Amazonas
Uma reunião presencial entre diversos participantes dispostos ao redor de mesas dispostas em formato de "U" numa sala de conferências iluminada. Os participantes, vestidos com trajes formais e de negócios, estão sentados atentos, alguns com computadores portáteis abertos, papéis, garrafas de água e copos à sua frente. Ao fundo, uma cabeceira conduz a reunião perante a bancada principal.

Foto: ONU/OCDE.

O Ministério Público Federal (MPF) participou, no último dia 7 de outubro, em Bruxelas, na Bélgica, de workshop internacional sobre rastreabilidade de minérios e uso dessas informações no combate à mineração ilegal. O encontro, restrito a convidados, reuniu procuradores, policiais, integrantes de governos e da sociedade civil de países da América do Sul, da África e da Ásia, além de representantes da União Europeia. Foram compartilhadas experiências e discutidas formas de cooperação entre as autoridades presentes.

O workshop Strengthening Traceability and Law Enforcement Responses to Minerals Crime through South-South Cooperation (Fortalecimento da rastreabilidade e das respostas de aplicação da lei aos crimes minerários por meio da cooperação Sul-Sul, em tradução livre) foi promovido pelo Instituto Inter-regional das Nações Unidas de Pesquisa sobre Crime e Justiça (Unicri/ONU) e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O evento ocorreu paralelamente à Conferência Global da Iniciativa de Transparência das Indústrias Extrativas (EITI).

O MPF foi representado pelo procurador da República André Luiz Porreca Ferreira Cunha, titular do 2º Ofício da Amazônia Ocidental e do 6º Ofício de Coordenação e Integração da Tutela Ambiental (6º Ocita). O 2º Ofício é especializado no enfrentamento à mineração ilegal no Amazonas, no Acre, em Roraima e em Rondônia. Já o 6º Ocita coordena, em todo o país, a atuação do MPF contra o garimpo ilegal.

Em sua exposição, o procurador detalhou as atribuições do MPF no Brasil, que englobam tanto a responsabilização criminal quanto a proposição de ações civis públicas para reparação de danos e adequação de empresas e órgãos públicos. Ele apresentou o funcionamento do controle de origem dos minérios no país, apontando que o sistema ainda se apoia prioritariamente nas declarações prestadas pelos próprios vendedores.

No caso do ouro, a legislação exige nota fiscal e restringe a primeira aquisição a instituições autorizadas pelo Banco Central, mas não há verificação presencial rotineira no local de extração para conferir a veracidade da origem informada. Quanto à cassiterita (minério do qual se extrai o estanho), não existe sistema oficial de rastreamento no país — cenário que levou o MPF a recomendar a sete órgãos federais, em fevereiro, a criação de um sistema nacional de rastreio da cassiterita, com identificação por lote e banco nacional de dados geológicos. A viabilidade técnica da medida já foi confirmada pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC) da Polícia Federal (PF) e pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB).

Maior apreensão de ouro do país (Roraima)

O primeiro caso levado ao evento foi a maior apreensão de ouro já registrada no Brasil. Em agosto de 2025, durante fiscalização de rotina na BR-401, em Boa Vista (RR), a Polícia Rodoviária Federal (PRF) localizou 205 barras de ouro escondidas no painel de uma caminhonete, totalizando mais de 103 quilos e valor estimado em R$ 54 milhões. A carga não possuía nota fiscal nem documentos de origem, e a perícia da PF identificou ouro bruto na forma de amálgama com mercúrio, típico de garimpo.

A partir de denúncia apresentada pelo 2º Ofício da Amazônia Ocidental em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPF em Roraima, a Justiça Federal condenou o transportador da carga, em dezembro de 2025, a 8 anos e 11 meses de prisão em regime inicial fechado, menos de cinco meses após o flagrante. A perícia técnica caracterizou a tipologia do metal, fundamentando a condenação, mas não pôde determinar o local exato da extração devido ao tamanho ainda reduzido do banco de amostras geológicas de referência. A decisão é de primeira instância e cabe recurso. As investigações sobre os financiadores e destinatários do metal continuam.

Operação Forja de Hefesto (Terra Indígena Yanomami)

O segundo caso abordou a extração ilegal de cassiterita da Terra Indígena Yanomami, na região norte do Brasil, investigada pela Operação Forja de Hefesto. A apuração revelou que o minério era extraído do território indígena, transportado por via aérea a partir de pistas clandestinas, registrado por uma cooperativa como produção declarada de seus cooperados e vendido a uma fundição em Rondônia. A empresa o transformava em lingotes de estanho com certificações internacionais, comercializados no Brasil e no exterior. Seis pessoas e quatro empresas foram denunciadas pelo MPF.

Recebida pela Justiça Federal em agosto, a denúncia aponta que somente entre maio e agosto de 2021 foram movimentadas 525 toneladas de cassiterita. Em setembro, em ação civil pública movida pelo MPF, a Justiça Federal determinou liminarmente que a fundição e a cooperativa comprovem a origem de cada lote negociado, designem um responsável pela conformidade (compliance) e apresentem relatórios periódicos ao juízo. Além disso, em outra ação relacionada aos mesmos fatos, a Justiça decretou o bloqueio de até R$ 146 milhões em bens de quatro empresas envolvidas. Os processos seguem em andamento.

Cooperação internacional

Durante o workshop, o procurador integrou dinâmicas em grupo para simular procedimentos diante de apreensões alfandegárias de minérios sem documentação ou com indícios de fraude. Foram debatidas a atuação imediata das autoridades, a consulta a registros digitais, a preservação de provas e os canais de cooperação internacional. Um levantamento prévio realizado pelos organizadores (Unicri e OCDE) com instituições do Brasil, Colômbia, Indonésia, Peru e Zâmbia destacou o Brasil entre os países que adotam a identificação física do minério por meio da chamada "impressão digital do ouro".

O procurador ponderou, contudo, que a tecnologia pericial desenvolvida pela Polícia Federal atua hoje de forma predominantemente repressiva — confirmando a origem do metal após a apreensão —, e não preventiva. Isso ocorre porque o banco de dados de referência mineral ainda está em expansão e as análises não são realizadas no momento da compra, refino ou exportação. Entre os principais gargalos apontados no levantamento internacional estão a falta de integração entre sistemas governamentais, dados incompletos, fragilidades na checagem das informações declaradas e limitações na troca transfronteiriça de dados.

“Nos dois casos apresentados, a documentação em papel pouco revelava sobre a real origem do minério. O ouro era transportado sem documento algum, enquanto o estanho circulava com notas fiscais e certificados formalmente válidos. O sistema de controle brasileiro ainda se apoia no que o vendedor declara, e a perícia só entra em cena depois da apreensão. A verificação precisa alcançar o produto físico e acontecer antes de o minério ser fundido e exportado”, afirmou o procurador da República André Porreca.

A PF implementou, em 2019, o Programa Ouro Alvo, que compara características químicas, isotópicas e morfológicas de amostras de ouro apreendido com as de áreas de mineração conhecidas. Segundo o MPF, a ampliação desse banco, inclusive com amostras de países vizinhos, permitiria usar a técnica também de forma preventiva, com verificações na primeira compra, nas refinarias e na exportação. Há iniciativas em andamento para isso, entre elas um acordo entre Brasil e França e um projeto de capacitação da Interpol baseado no método brasileiro.

O procurador defendeu que a cooperação internacional avence por meio do compartilhamento de amostras geológicas de referência, pelo fortalecimento de canais diretos e ágeis entre os Ministérios Públicos e pela inclusão da cassiterita e de outros minerais estratégicos na agenda global de rastreabilidade, atualmente focada de forma quase exclusiva no ouro.

Apresentação do MPF sobre mineração ilegal e rastreabilidade mineral na Amazônia brasileira (Português)

Illegal mining and mineral traceability in the Brazilian Amazon (English)

Relatório do MPF sobre mineração ilegal na Amazônia, atuação estrutural e casos de maior destaque (Português)

Report - Illegal mining in the Amazon - Structural work and leading cases (English)


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