Eleitoral
MP Eleitoral pede que TSE barre candidatura de deputado eleito no RJ por vínculo com o crime organizado
Parecer aponta envolvimento de Márcio Canella em esquema criminoso de combustíveis, no apadrinhamento de pessoas ligadas a milícias, além de ligação com o Comando Vermelho
Arte: Comunicação/MPF
O Ministério Público (MP) Eleitoral defende que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) barre a candidatura de Márcio Canella, deputado estadual eleito no primeiro turno das eleições deste ano no Rio de Janeiro. Em parecer enviado à Corte, nessa sexta-feira (23), o Ministério Público sustenta haver provas suficientes de que o político possui envolvimento com organizações criminosas.
Canella foi preso no último dia 15, na 8ª fase da Operação Unha e Carne, que apura esquema criminoso de lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis no Rio de Janeiro.
No parecer, o vice-procurador-geral eleitoral (vice-PGE), Alexandre Espinosa, sustenta que o TSE já consolidou entendimento para impedir que políticos ligados a organizações paramilitares ou similares participem da disputa eleitoral, independente de haver condenação transitada em julgado (em que não cabe mais recurso). A decisão se baseia na regra prevista no art. 17 da Constituição Federal, que proíbe a influência desses grupos nos partidos políticos.
Nesse contexto, o vice-PGE pede ao TSE a reforma da decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), que havia liberado a candidatura sem ter acesso às provas do Inquérito nº 5.020/DF, em trâmite no Supremo Tribunal Federal (STF). Isso porque o sigilo do processo foi retirado pela Suprema Corte somente este mês, após a prisão do político.
Espinosa defende que o TSE leve em consideração, para barrar a candidatura, as provas do inquérito que apontam Canella como articulador político no esquema criminoso dos combustíveis. No processo, há indícios de que ele influenciou a indicação de cargos na cúpula da segurança pública para favorecer o grupo criminoso, além de receber dinheiro em espécie proveniente do esquema.
Na 6ª fase da Operação “Unha e Carne”, deflagrada em julho deste ano, a Polícia Federal já havia apreendido em endereços do candidato R$ 919 mil em espécie, além de dólares e de um fuzil de uso restrito encontrado no interior de seu veículo.
Outras nomeações
Na manifestação, o Ministério Público aponta ainda outros indícios do envolvimento de Canella com milícias. Como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ele empregou em cargo comissionado de seu gabinete, até 2023, a esposa de um líder do grupo miliciano conhecido como“Bonde do Jura”.
De acordo com o parecer, ao assumir a prefeitura de Belford Roxo, em 2025, ele voltou a nomear para duas secretarias líderes de milícias da região. Um deles já era condenado pela Justiça pelo crime de constituição de milícia e o outro respondia à processo por extorsão e porte ilegal de arma, tendo sido posteriormente condenado. Ambos participaram da campanha de Canella nas eleições deste ano.
Há ainda indícios de que, durante sua gestão na prefeitura de Belford Roxo, a Operação “Barricada Zero” para a remoção de obstáculos do tráfico de drogas envolveu acordos informais com o Comando Vermelho. Os acordos previam a liberação temporária dos acessos às comunidades para realização de obras e gravações de vídeos, com a posterior restituição do controle territorial à facção.
“É possível afirmar, portanto, a existência de elementos seguros e convergentes que demonstram não apenas a infiltração de lideranças milicianas na administração pública por intermédio do candidato, como também o apoio eleitoral ostensivo por elas prestado à sua campanha e a sua atuação destacada como articulador de organização criminosa armada”, conclui Espinosa no parecer.
Íntegra do parecer
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