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Comunidades Tradicionais

MPF busca acordo com mineradora para reparação socioambiental a comunidades quilombolas de Paracatu (MG)

Comunidades centenárias lutam há mais de 17 anos por medidas reparadoras de danos causados por atividades de empresa multinacional

Data: 09/10/2026 • 17:06 Unidade: Procuradoria Regional da República da 6ª Região
Fotografia em plano aberto e ângulo plongée (vista ligeiramente de cima) mostra uma reunião pública em um amplo auditório iluminado. Várias pessoas estão sentadas em cadeiras plásticas brancas e pretas dispostas em fileiras, de costas para a câmera e voltadas para uma mesa comprida ao fundo, onde homens e mulheres estão dispostos lado a lado na condução do evento. À esquerda, ao fundo e à direita, dezenas de pessoas acompanham a reunião em pé, lotando as laterais e o espaço ao redor do ambiente.

Foto: Comunicação/MPF.

O Ministério Público Federal (MPF) atua para firmar um acordo com a multinacional canadense Kinross Gold Corporation voltado à reparação de danos socioambientais, territoriais e culturais causados às comunidades quilombolas de Machadinho, Amaros e São Domingos, em Paracatu (MG), no Noroeste de Minas Gerais.

A negociação, conduzida pelo procurador regional da República José Adércio Leite Sampaio em ação civil pública no Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6), estrutura-se em três eixos principais: reconhecimento oficial das comunidades, garantia dos direitos territoriais e definição de critérios para indenizações e reassentamentos. A iniciativa busca reparar violações registradas ao longo de décadas de exploração minerária na Mina Morro do Ouro.

Para acompanhar a realidade enfrentada pelas populações atingidas, o MPF visitou as instalações da mineradora e promoveu reuniões com representantes das três comunidades quilombolas. A presença no local permitiu verificar a dimensão dos impactos decorrentes da atividade de mineração.

Um dos encontros reuniu cerca de 300 integrantes do Quilombo do Machadinho. Durante a reunião, os moradores relembraram a trajetória de líderes e familiares que lutaram historicamente pelos direitos e pelo território quilombola, mas faleceram sem ver a reparação dos danos.

“O Ministério Público Federal está empenhado em construir uma solução que resgate a dignidade e garanta a reparação integral a essas populações que tiveram seus territórios invadidos e seus modos de vida fragmentados. A busca por um acordo não significa flexibilizar exigências, mas assegurar com celeridade o direito à terra, à justa indenização e à segurança para quem sofre os diários e graves impactos da mineração”, afirma o procurador regional da República José Adércio Sampaio, responsável pela condução da vistoria na região.

Fotografia em plano geral e perspectiva panorâmica de uma vasta mina de mineração a céu aberto sob um céu azul ensolarado com nuvens brancas dispersas. As paredes rochosas e escavadas da cratera formam degraus e caminhos sinuosos em tons de cinza, marrom e verde-azulado ao longo de toda a extensão do relevo. Em primeiro plano, no canto inferior direito, vê-se uma encosta íngreme de rochas e cascalho escuro, de onde se contempla a imensidão da cova de mineração ao fundo.Atividade e receitas – A unidade da Kinross em Paracatu opera a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil, sendo responsável por cerca de 22% da produção nacional do metal, com extração anual situada entre 17 e 18,6 toneladas. A operação exige o processamento de grandes volumes de rocha, já que o teor aurífero local é de 0,4 grama por tonelada extraída.

Em 2025, a empresa registrou lucro líquido global de US$ 2,39 bilhões (cerca de R$ 14,73 bilhões), dos quais quase 30% foram gerados pela unidade mineira. Ao mesmo tempo, áreas de ocupação ancestral das comunidades tradicionais foram despossuídas e incorporadas aos empreendimentos da mineradora ao longo dos anos.

Estrutura de rejeitos – Dos mais de dois mil hectares em processo de demarcação pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para o Quilombo do Machadinho, mais da metade estão ocupados pela mineradora, sendo a maior parte do território situada sob a Barragem de Eustáquio. A estrutura possui capacidade licenciada para 750 milhões de metros cúbicos (m³) de rejeitos — volume mais de 60 vezes superior ao da barragem que se rompeu em Brumadinho (MG) em 2019, que armazenava cerca de 12 milhões de m³.

Somada à Barragem Santo Antônio (483 milhões de m³), o complexo acumula 1,2 bilhão de metros cúbicos de rejeitos. A Barragem de Eustáquio já foi objeto de inquérito civil para apuração de trincas e processos erosivos em seu aterro. Além disso, análises da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) identificaram a presença de arsênio e metais pesados em cursos d’água e no lençol freático da região.

Imagem de um mapa de satélite com visão aérea que mostra a localização de territórios quilombolas e a propriedade da mina Morro do Ouro, no município de Paracatu (MG). O perímetro da mineradora Kinross é demarcado por uma linha contínua vermelha no centro do mapa, abrangendo uma área de cava de mineração e bacias de rejeitos. Sobrepostas parcialmente e ao redor desse limite estão três áreas sombreadas em amarelo, indicando os "Territórios Quilombolas" identificados como Machadinho (à esquerda e centro), São Domingos (ao sul) e Amaros (à direita). A área urbana do município de Paracatu aparece na parte inferior da imagem, ao sul da zona de mineração. No canto inferior esquerdo, há uma legenda explicativa dos elementos vetoriais, e no canto inferior direito, uma rosa dos ventos apontando para o norte e uma escala gráfica em quilômetros. A legenda na parte inferior indica: "Figura 2: Mapa de localização das comunidades em relação ao empreendimento. Fonte: KINROSS, 2026."Comunidades atingidas – As três comunidades quilombolas reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares apresentam quadros diversos de impacto territorial:

• Quilombo do Machadinho (Procedimento Incra nº 54710.003688/2005-70): comunidade totalmente desterritorializada, que teve grande parte das terras sobreposta pela estrutura de rejeitos. A degradação ambiental, a perda de nascentes e o avanço das pilhas de estéril inviabilizaram a agricultura familiar e manifestações culturais tradicionais. A maioria das famílias deixou a área e se dispersou por municípios de Minas Gerais, Goiás e pelo Distrito Federal.

• Quilombo dos Amaros (Procedimentos Incra nº 54170.008897/2003-48 e nº 54170.007241/2009-01): comunidade totalmente desterritorializada, com mais de 500 famílias dispersas em decorrência da expansão das operações da Barragem de Santo Antônio e da atuação de outros posseiros.

• Quilombo de São Domingos (Procedimentos Incra nº 54.170.000059/2004-15, nº 54170.007247/2009 e nº 01420.001299/2010-11): abriga cerca de 186 famílias (aproximadamente mil pessoas) e está situado entre a cava da mina e a área urbana de Paracatu.

Fotografia em plano aberto registrada à noite em um quintal de chão de terra batida, onde cerca de vinte pessoas estão dispostas em círculo sentadas em cadeiras plásticas brancas. O grupo, formado por homens e mulheres de várias idades com trajes casuais, participa de uma conversa sob a iluminação de lâmpadas fixadas na estrutura de uma varanda simples ao fundo. Nas paredes laterais do espaço, observam-se pinturas artísticas em estilo grafite.Impactos cotidianos – Moradores de São Domingos e de bairros vizinhos, como Alto da Colina e Bela Vista II, relatam transtornos diários decorrentes das atividades de mineração. As detonações com explosivos realizadas no período da tarde provocam tremores e fissuras na estrutura das residências.
A poeira gerada pelas operações atinge as moradias e causa problemas respiratórios na população local. Avaliações técnicas e perícias promovidas pelo MPF detectaram níveis elevados de arsênio em amostras de urina de moradores e no material particulado suspenso no ar nas proximidades da mina.

Reparação e direitos – Paralelamente às negociações conduzidas pelo MPF, lideranças locais ajuizaram ações civis públicas que pleiteiam R$ 1 bilhão em reparações morais e socioambientais. Entre as reivindicações das comunidades estão a demarcação e a titulação das terras pelo Incra, a reparação por danos à saúde e ao patrimônio e o estabelecimento de um plano de fechamento de mina e descaracterização de barragens.

A Procuradoria Regional da República da 6ª Região (PRR6) é a unidade do MPF que atua na ação civil pública perante o TRF6, segunda instância da Justiça Federal com jurisdição sobre o estado de Minas Gerais.


Ação Civil Pública nº 0001628-72.2009.4.01.3806
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Ministério Público Federal
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