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Meio Ambiente
16 de Maio de 2019 às 10h5

MPF recomenda suspensão de licenciamento do empreendimento Ponta dos Castelhanos em Boipeba (BA)

Órgão requer que Inema e Sema interrompam licenciamento até que SPU conclua regularização fundiária das comunidades tradicionais e decida sobre uso correto do imóvel de propriedade plena da União

A arte mostra uma parte da ilha de Boipeba tendo à frente a expressão Licenciamento Ambiental

Arte: MPF

O Ministério Público Federal (MPF) expediu, nessa quarta-feira (15), recomendação à Secretaria do Meio Ambiente do Estado da Bahia (Sema) e ao Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), para que interrompam o processo de licenciamento do empreendimento imobiliário Ponta dos Castelhanos, na ilha de Boipeba. O empreendimento pretende se instalar em imóvel de propriedade plena da União, inscrito sob o regime de ocupação, de natureza precária. A interrupção deve durar até que a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) conclua a regularização fundiária dos territórios das comunidades tradicionais e decida sobre interesse em realizar, ou não, o aforamento da área remanescente. A recomendação destaca a importância de preservar as comunidades tradicionais e seus territórios, como forma de valorizar a diversidade cultural e biológica do Brasil.

Trata-se de empreendimento imobiliário de 1.651 hectares (16.510.000m²), que o grupo econômico Mangaba Cultivo de Coco  pretende instalar na Fazenda Castelhanos, antiga Fazenda Cova da Onça, em área que equivale a quase 20% da Ilha de Boipeba. O projeto inicial prevê 69 lotes para residências fixas e de veraneio, duas pousadas com 3.500 m² cada, além de mais 82 casas, parque de lazer, píer e infraestrutura náutica, aeródromo e área para implantação de um campo de golfe de 3.700.000 m².

Comunidades tradicionais – Foi apurado no inquérito civil a existência de comunidades tradicionais na área de influência do empreendimento, dentre as quais se destacam a de Cova da Onça, na ilha de Boipeba, e de Barra dos Carvalhos, em Nilo Peçanha (BA), que utilizam recursos naturais disponíveis em diversos pontos da ilha para pesca, mariscagem e extrativismo, por meio da reprodução de conhecimentos transferidos oralmente por gerações. Essas atividades, nos locais em que são realizadas, são indispensáveis para manutenção da identidade coletiva e do modo de vida diferenciado.

Segundo o MPF, são considerados como território tradicional dessas comunidades, para fins da proteção conferida pela Constituição, convenções internacionais e decretos, além do local em que residem, os caminhos tradicionais e locais de pesca, mariscagem, extrativismo e lazer.

A presença de comunidades tradicionais e a extensão de seus territórios, caracterizados como espaços necessários para reprodução de seu meio de vida, foram confirmadas pelas manifestações dos membros das comunidades, pelos estudos ambientais do empreendedor (EIA/RIMA), pelos pronunciamentos técnicos do órgão licenciador – Inema – e da SPU e pela perícia antropológica do MPF. Para o MPF, não há qualquer controvérsia a esse respeito.

A ilha de Boipeba integra a Área de Proteção Ambiental das Ilhas de Tinharé e Boipeba, unidade de conservação estadual, cujo plano de manejo aprovado em 19 de junho de 1998 já reconhecia que a área era utilizada para pesca e extrativismo por comunidades tradicionais.

A recomendação relembra que o Brasil se obrigou internacionalmente, por meio da Convenção sobre Diversidade Biológica, a “respeitar, preservar e manter o conhecimento, inovações e práticas das comunidades locais e populações indígenas com estilo de vida tradicionais relevantes à conservação e à utilização sustentável da diversidade biológica” (art. 8º, “j”), bem como a “proteger e encorajar a utilização costumeira de recursos biológicos de acordo com práticas culturais tradicionais compatíveis com as exigências de conservação ou utilização sustentável”(art. 10, “c”).

O Brasil também assumiu a obrigação internacional de “reconhecer aos povos interessados os direitos de propriedade e de posse sobre as terras que tradicionalmente ocupam”, bem como a instituir “procedimentos adequados no âmbito do sistema jurídico nacional para solucionar as reivindicações de terras formuladas pelos povos interessados” (Convenção OIT 169).

Contudo, foi apurado que o empreendimento pretende ocupar o território tradicional das comunidades, que seriam impedidas de realizar as atividades que fazem há gerações, com risco para suas existências, pois a “privação ou limitação de acesso aos locais que utilizam por gerações para suas atividades cotidianas resulta não apenas na perda das fontes de renda, mas na descaracterização da própria cultura e identidade do grupo”, afirma o procurador na recomendação.

Por se tratar de imóvel da propriedade da União, a legislação impõe que seja prioritariamente realizada a regularização fundiária de comunidades tradicionais (art. 10-A da Lei 9.636/98 e art. 7º do Decreto-Lei 271/1967).

Apropriação privada e ilegal de terras da União – O empreendimento imobiliário pretende se instalar em imóvel de propriedade da União, cadastrado sob o Registro Imobiliário Patrimonial – RIP 3407.0100153-28, sob regime de ocupação. A inscrição de ocupação em imóvel público não resulta em qualquer direito de propriedade, podendo a União, em qualquer tempo que necessitar do terreno, retomar a posse do mesmo, promovendo sumariamente a sua desocupação.

O MPF destaca possíveis irregularidades na transferência da ocupação do imóvel da União, que foi objeto de especulação imobiliária pelos particulares, sem a anuência obrigatória da SPU. A recomendação esclarece que o empreendimento Ponta dos Castelhanos, que resultaria na alienação de lotes a terceiros e construção de estruturas permanentes (residências, pousadas, aeródromo etc) é “incompatível com o regime de ocupação de imóvel de propriedade da União, pois inviabilizaria a futura retomada do bem, configurando verdadeira apropriação privada e ilegal de terras públicas”.

Segundo o MPF, esse tipo de empreendimento apenas poderia ser realizado em imóvel da União sob regime de aforamento, o qual pressupõe a realização de leilão ou concorrência pública, com o pagamento do valor de mercado do domínio útil ao ente público, e não ao particular que apenas ocupava precariamente a área (art. 12 da Lei 9.636/98);

Consta da recomendação que não é admissível a ocupação em imóvel da União que possa prejudicar programas ou ações de regularização fundiária de comunidades tradicionais e que a legislação impõe que esses imóveis devam ser destinados, prioritariamente, à regularização fundiária de comunidades tradicionais existentes.

Além disso, a Lei 9.636/98 proíbe ocupações de imóveis da União que estejam concorrendo ou tenham concorrido para comprometer a integridade de implantação de programas ou ações de regularização fundiária de interesse social ou habitacionais das reservas indígenas e das áreas ocupadas por comunidades remanescentes de quilombos.

Durante o processo de licenciamento ambiental, a SPU informou ao Inema sobre a necessidade de concordância da União para instalação do empreendimento no imóvel de seu patrimônio, sob o regime de ocupação. Por essa razão, a SPU/BA requereu ao Inema a suspensão do processo de licenciamento, enquanto a ocupação do imóvel da União está pendente de regularização fundiária, com processo administrativo já em curso, o que não foi aceito.

Segundo o MPF, “não existe fundamento legal para o Inema realizar o licenciamento ambiental de um empreendimento sem a concordância do proprietário do imóvel em que será instalado, especialmente em se tratando de imóvel da União, insuscetível de usucapião ou desapropriação”.

Na mesma oportunidade, o MPF também recomendou à SPU que conclua a regularização fundiária das comunidades tradicionais, bem como para que fiscalize possível desvirtuamento da ocupação do imóvel da União, inscrito sob regime precário de ocupação.

Íntegras das recomendações expedidas à Sema e ao Inema e a expedida a SPU

Número do Inquérito para consulta processual no MPFICP nº 1.14.001.000322/2014-10

E agora? A recomendação é um instrumento de atuação extrajudicial do MPF, que busca evitar a judicialização de demandas e a consequente demora na solução de questões, tendo em vista os prazos e etapas previstas em lei até o julgamento definitivo de um processo. Agora, o MPF analisará as providências adotadas e poderá seguir acompanhando a situação ou, se for o caso, mover ações requerendo judicialmente a adoção das medidas, a regularização dos problemas apontados e a responsabilização de pessoas por descumprimento da legislação aplicável.

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